Mais polêmico que o “coice-de-mula-mansa” que Rena aplicou em Rodrigo Mendes no último domingo, para a minha felicidade e de outros tantos, é a, já histórica, Lei Seca Brasileira. Em sua terceira semana em vigor, não faltam opiniões, críticas, teorias e qualquer outro tipo de papo de buteco a respeito. Enfim, antes que apareça o Al Capone à Brazilian, publico um texto de David Coimbra, aquele cara lá que sempre fala de futebol e mulher pelada no Zero Hora. O rapaz escreveu um daqueles ensaios impactantes que logo se transformam em spam nos e-mails dos afortunados de tempo. Vale a pena dar uma lida.
O Pequeno Príncipe
Todos os dias, mas todos os dias mesmo, sem faltar um, a Redação de Zero Hora é visitada por misses. Ou rainhas. Rainha do Nabo, Rainha do Aipim, há muitos tubérculos necessitando de rainhas neste Estado gigante da agricultura. Elas vêm sempre em trio, a rainha ladeada por suas duas princesas. Excluindo sábados e domingos, são 15 rainhas ou princesas por semana, 60 por mês, 720 por ano. Muita realeza. Mas mesmo sendo tantas, todas sabem de verdades que os legisladores brasileiros desconhecem. Por quê? Porque leram O Pequeno Príncipe, as misses têm o hábito de ler O Pequeno Príncipe. Se os deputados também o tivessem, lembrariam de um trecho célebre no qual o principezinho encontra o rei de um minúsculo planeta. Tratava-se de um monarca absoluto, que fazia questão fechada de que suas ordens fossem obedecidas. Como não havia mais ninguém no planeta, o principezinho perguntou sobre o que o rei reinava. Ele respondeu que sobre tudo, o seu planeta, as estrelas, tudo.
- E as estrelas vos obedecem? – indagou o principezinho.- Sem dúvida. Obedecem prontamente. Eu não tolero indisciplina.
Encantado com tamanho poder, o Pequeno Príncipe pediu para ver um pôr-do-sol. Ao que o rei observou:
- Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem, ele ou eu, estaria errado?
- Vós – respondeu com firmeza o principezinho.
- Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar – replicou o rei. – A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.
- E meu pôr-do-sol? – lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que houvesse formulado.
- Teu pôr-do-sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ciência de governo, que as condições sejam favoráveis.
- Quando serão? – indagou o principezinho.
- Hem? – respondeu o rei, que consultou inicialmente um grosso calendário. – Será lá por volta de por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem obedecido.
As misses, as rainhas, as princesas, o rei do Pequeno Príncipe, todos sabem que uma ordem impossível de ser cumprida… não será cumprida! Caso da Lei Seca, ora promulgada. A aplicação de tal lei é plausível e até recomendável nas estradas, mas nas cidades se torna ficção. São incontáveis as chances de uma pessoa ser denunciada pelo bafômetro com os rígidos limites impostos, desde o mamão papaia com cassis e o bombom com licor à única taça de champanha consumida no brinde durante uma recepção, passando pela saída não planejada com a colega de trabalho. Se a polícia quiser encher ainda mais os presídios, basta colocar viaturas a circular por Porto Alegre todas as noites a partir da uma da madrugada. Duas, 3 mil pessoas serão encarceradas por dia. E nem isso fará com que a lei seja observada. Até porque a maioria das pessoas que bebe não se embriaga. São essas as pessoas, as mais sensatas, que vão desafiar a legislação. Uma pena, porque eis aí uma lei bem-intencionada. Foram tantas as boas intenções dos que a escreveram, que exageraram. A lei perderá a credibilidade. E, ao invés de irmos para frente, iremos para trás. Só porque os parlamentares não leram O Pequeno Príncipe, só porque não sabem que a autoridade repousa sobre a razão.
David Coimbra
* Acrescento, ainda, que ao brasileiro não são dadas alternativas viáveis de transporte – seja público ou privado – por alto custo, precariedade, insegurança etc. Ou seja, quem bebe fica sem poder sair do lugar em que está. Ninguém pode sair caminhando pelas ruas desertas nas noites e madrugadas brasileiras, nem contará com ônibus ou metrôs circulando com segurança. Resta o táxi, caro.
Lei Seca: Motoristas embreagados são alvo
Fábio Prina_01/07/2008

A lei é absurda por não prever um limite mínimo. O próprio INMETRO indica que deveria haver uma tolerância de pelo menos 0.1. Do modo como esta qualquer um pode ser multado, perder a carteira e ter o carro apreendido, mesmo quem nunca bebeu na vida. Brasileiro adora uma contravenção, jogo do bicho, bingo, sonegação do imposto de renda, macacos, e dentro em breve muitos dos que se dizem favoráveis hoje, vão estar agindo na ilegalidade. Não sou contra a lei, mas zero é impraticável, não existe, o instrumento não tem precisão para tal. Esta “estória” de permitido até 0.2 é mentira, quem duvidar é só ler o texto orginal da lei. Este “zero” que tanto se fala só existe em países arabes onde nem se usa bafômetro porque é proibida a fabricação e venda de bebidas alcoolicas por questões religiosas. Queremos que este limite “superior ao erro do aparelho” seja declarado na lei para podermos voltar a dirigir sem medo de sermos coagidos pela policia.
Comment por Andre — 8 Agosto, 2008 @ 5:01 pm |
[...] além de um post que publiquei sobre o terrorismo nos maços de cigarro, uma outra postagem sobre um texto muito pertinente do cronista gaúcho David Coimbra. A lei é diferente, mas o assunto dialoga, nas palavras dele, o autor recorre ao diálogo entre o [...]
Pingback por É proíbido fumar!!! « Fábio_Prina_blog _cinema_cultura_música_livros_fotografia_ e_outras_besteiras_desinteressantes. — 7 Agosto, 2009 @ 11:50 am |