Logan – uma crítica nada séria

Há tempos não escrevo nada, além daquilo que sou pago para escrever. Enfim, faz tempo que não exercito o meu prazer. Hoje me dei esse luxo.

Esse último final de semana foi muito especial, depois de quatro anos, fui ao cinema com a minha namorada para assistir a um filme comercial. Quebramos essa regra apenas para ver o filme-show do Roger Waters – The Wall, há uns dois anos, fora isso, nunca encontramos uma boa desculpa para ir ao cinema.

Posso colocar a culpa na nossa pequena filha, de quase quatro anos, o que seria um absurdo, já que, desde que ela nasceu, prezados ao máximo passar o tempo que temos disponível com ela. Posso colocar a culpa também na programação pouco atraente dos multiplex que nos cercam, o que é outra bobagem, os filmes continuam os mesmos, com títulos e caras novas. Mas o fato de assistir a um filme acompanhado da pessoa que eu mais gosto que me acompanhe em filmes, foi escasso, confesso.

Mas no domingo, convidei a minha amada para ir ao cinema. Sugeri assistir “Cinquenta Tons Mais Escuros”, aquele erótico soft que vende às centenas para as meninas. A sugestão foi recebida com tanta ironia por ela, como ao do convite que eu fiz. Então sugeri Logan, um filme que realmente é a cara do nosso relacionamento, o mesmo que iniciou com discussões nerd sobre super heróis e cinema autoral, banhadas a cerveja nos bares ao entorno da universidade, onde nos conhecemos.

Deixamos nossa pequena com a vovó e partimos para a aventura de pipoca (nem compramos). Ela adorou –  o filme, já que a aventura por si foi apenas um passeio no shopping com o combo, compras, janta e cinema. Eu não – o filme, claro, porque qualquer momento que eu possa dividir com as pessoas que gosto, me sinto o maior dos super heróis do universo.

Cá chegamos na parte que falo sobre o filme que assistimos. Vou falar sobre diversas coisas, que podem acabar com a surpresa de quem não assistiu ao filme, então, sugiro que não sigam lendo àqueles que não querem ter nenhuma emoção estragada por essas batidas de tecla sem discernimento.

Logan (de James Mangold, 2017) deveria ser a terceira parte de uma trilogia derivada de uma outra trilogia, que seria os filmes dos X-Men, iniciada por Brian Singer (que não é cantor), em 2000, com duas continuações, um praquel em 2011, que depois viria ter outras duas continuações do original, que era o praquel. Enfim, esse enredo confuso é concluído no desastroso filme derradeiro dessa bagunça de nove filmes até então, chamado “X-Men – Apocalipse”. Não consigo me aprofundar mais do que isso, porque honestamente, fora algumas cenas, todos esses ‘vai e vem’ não fazem pra mim a menor diferença. Mas vi todos, ou aguentei todos, aguardando a redenção de uma turminha tão bacana quanto os X-Men no cinema. E essa era a promessa de Logan: se redimir dos fracassos homéricos que foram conduzidos até então.

Ao que parece, a tentativa de levar aos fãs – ou aqueles caras que se dizem fã de qualquer coisa, porque consomem tudo que aparece de qualquer herói que ganha duas horas de projeção na tela – foi tentada duas vezes, utilizando o mesmo personagem de Logan, mais conhecido pelo nome de Wolverine. O errante personagem da Marvel ganhou duas adaptações cinematográficas anteriores, o indecifrável X-Men Origens: Wolverine, que é um filme tão sem noção, que figura ao lado de Soldado Universal: O Retorno, como pior filme que utiliza dois pontos no título, de todos os tempos – minhas maneiras de classificar filmes são diversas, admito.

E depois, veio o errante “Wolverine Imortal”. Um filme que me marcou tanto, que nem lendo a sinopse consigo lembrar do que se tratava.

Eis que o mesmo diretor desse último citado, James Mangold, assinou a terceira passagem solo do mutante animalesco nas telas. E ela não decepciona, perante seus predecessores, é melhor sim, é recheada de cenas bacanas, mas é tão distante de um filme de super herói, que chega a decepcionar.

Primeiro, vou contar um segredo que não interessa a ninguém: a publicidade, mais uma vez, me conquistou. Digo isso porque foi impossível assistir aos trailers de Logan, sem ser tocado pela voz forte de Johnny Cash entoando Hurt, sua música de final de carreira que prestou contas a uma geração inteira, que não compreende o legado até hoje. Poderia ser malvado aqui e dizer que esse tal James Mangold simplesmente fez uma auto citação, colocando músicas de um personagem o qual já dirigiu uma biografia. Saca Walk the Line, traduzido pessimamente no Brasil como “Johnny e June”, é do mesmo diretor. O que isso quer dizer? Nada! Continuamos.

O trailer pós-apocalíptico, mostrando um velho Wolverine, um idoso Xavier e uma penca de cenas de carnificina me ganharam fácil, mas aquela vontade de ver, veio mesmo dos comentários dos nerds que eu respeito, dizendo que era o grande filme dos X-Men. Talvez seja, não vou dizer que não. Mas longe de ser um grande filme.

Vamos ao que interessa, Logan, não se passa exatamente num futuro pós-apocalíptico, na verdade é num futuro bem plausível. Tirando o fato de que existem os mutantes na tela, o filme é muito parecido com 2016/2017. Há um aplicativo para chamar carros para passear, os celulares ainda são utilizados nas mãos, as casas precisam dos recursos de eletricidade e água, se dirige caminhonetes dos anos 70 e as pessoas ainda transacionam dinheiro em espécie. O que realmente ganha corpo dentro da ficção científica, no mundo do filme, é a genética. Já que não nascem mais mutantes (o porquê não foi explicado e nem fez falta), se criaram embriões em laboratório com as características daqueles que um dia dominaram a Terra. Não os dinossauros, os humanos com poderes excepcionais.

Bom, nesse mundo bem parecido com o que vivemos restam poucos mutantes, sabemos de três: Wolverine, Charles Xavier e um outro carinha que não lembro o nome, mas ele fareja mutantes. Um personagem que, veja bem, ele tem o dom de fazer o que o Wolverine fazia com o nariz, ou o que o Xavier fazia com a mente. Mas o primeiro tá baleado e o outro tá com o pé na cova. Seguimos…

Nesse mundo igual ao nosso no futuro, uma das grandes melhorias, sem dúvida, será na edição de imagem por celular. A Gabriela, personagem que não vou explicar por falta de paciência, mostrou em duas cenas, que é possível gravar um vídeo selfie, com locução em off e trilha, de uma noite pra outra, coisa que quem mexe com imagem hoje sabe que é um saco. Nesse vídeo excelente, há uma complexa edição de câmeras escondidas (alô Ivo Holanda), a qual ela mostra a origem de uma garotinha chamada Laura, mais conhecida pelos nerds como a X-23. Essa mina tem um poder de mutação igual ao do Wolverine, e, como ele, foi submetida a um experimento com um metal chamado adamantium, que ocupa toda a sua estrutura óssea, além do bônus de garras nas mãos e uma no pé. Ainda não sabemos como esses dois personagens fazem para mexer o pulso quando as garras das mãos estão em modo descanso, mas enfim, funcionam tri bem.

Bom, a Gabriela pede para o Wolverine levar a Laura para um lugar secreto, que não é tão secreto assim, já que está escrito em tudo que é papel que aparece pelo caminho. A Gabriela morre, o Wolverine, que é um animal, tem seu coração partido pela pequena garota e pelos conselhos de um idoso que deixa de ser biruta com 5min de filme, e parte para a parte road movie do filme, com a pequena e o velho. Oba, que novidade, um filme de estrada para falar em redenção. Imagina se o Jack Kerouac tivesse essa ideia lá atrás, todo mundo ia copiar. Spoiler pra vida: se você tem uma vivência errante e quer terminar achando que é o cara, pegue um carro velho e caia na estrada com um desconhecido, o final será maravilhoso, com sua morte, mas histórico.

No meio disso, claro, tem muita acão, nunca Wolverine foi tão furioso na tela. Ele crava as garras, arranca membros, mata bandidos, capangas e alguns inocentes no meio do caminho com fervor. Algo meio Deadpoll, só que sem as piadas. Na verdade, parece que pegaram a mesma equipe de efeitos visuais bizarros do longa antecessor, que abriu caminho para filmes de herói non-sense no cinema, e colocaram no produção para dar um ar de ‘ai que violento’ nesse filme aí.

O fato de ter a cosmética da violência tão latente em Logan, me fez lembrar do último filme que havia assistido com a minha companheira em casa. Há duas semanas, aproveitamos uma reprise de “O Silêncio dos Inocentes”, na TV paga para curtir noite adentro. O Silêncio… nunca apela para a violência explicita, até mesmo quando o canibal Hannibal Lacter abocanha o rosto de um dos guardas. É tudo implícito. Mesmo assim, esse filme assombra gerações pela tortura psicológica, de saber o que um ser humano é capaz em seu estado mais sombrio.

Logan é mais literal, vai pelo caminho curto da sanguinolência, não que seja ruim, mas parece uma piada requentada trocando o português pelo espanhol.

Aliás, outra coincidência de Logan com outros produtos da cultura pop, está ena cena em que Wolverine, Xavier e Laura visitam a casa de uma família afro descendente e desencadeiam um tiroteio e massacre. Me lembrou, e muito, “O Exterminador do Futuro 2”, em que o momento de paz foi silenciado pelo tiroteio sem fim. Falando em Exterminador, o que falar do X-24, que seria o grande vilão do filme – um clone de Wolverine -, mais animal que o próprio Wolverine, sem alma, sem dó, sem controle. Sério, me vi muito vendo essas continuações do Exterminador que o velho Schwarzenegger se vê encarando um dos dele em CGI, tosco pra caramba.

Falando em vilões, eu gosto de heróis que enfrentam vilões. Seu nêmesis, seu algoz, que de alguma maneira encaram nosso preferido de frente e tem seu duelo mortal à luz do luar, com a cavalgada da vitória ao amanhecer. Viajei né? Sei, mas talvez, uma pequena parte disso poderia ter se usado nesse filme.

Logan não tem vilão. Tem o cara dos Carniceiros, que parece o Sawyer do Lost e é morto pela criançada, tem o pai do William Styrker (que é o cara que colocou o adamantium nele) também tendo um fim sem graça, e tem o tal X-24, que no final das contas, não presta pra nada. Eu sou mais old school nisso, gosto do herói enfrentando o vilão mor e dando-lhe uma tunda de pau. Básico e não tem erro. É assim que o Batman encara o Coringa, que o Superman dá o recado pro Lex e que o Homem-Aranha lida com o Duende Verde.

O pior vilão de Logan é a sua velhice-fraqueza, que cada vez mais consome as carnes do nosso herói. Não que seja ruim, acho que é o maior ganho dessa naba. Ver o Hugh Jackman se arrastando 97% do filme, dá uma certa agonia, uma vontade de ajudar. Em uma certa cena, Wolverine está inconsciente na mesa de um velho médico que se oferece para ajudar. Pensei naquele instante em ver o animal humanizado, recebendo curativos e pontos para voltar mais inteiro à cena.

Infelizmente, não é o que acontece. A tal ponto do filme, somos apresentados a uma substância verde que recria os tecidos dos humanos, emulando o mesmo fator cura, que já foi o diferencial do baleado (literalmente) Wolverine. Em seguida, numa cena patética, nosso Wolverine pega um ampola dessa substância e fica fortão e bonitão num toque. Jurei que o filme estava de palhaçada e iria tocar a música do Popeye para alegrar a gurizada. Que nada, ele estava se levando a sério. Daí a gente larga de mão, né?

Bom, o final do filme não é lá grandes coisas, o Wolverine vai ajudar as crianças em apuros. Ele é um animal mas tem coração, né? Só que o X-24 tá na banda e vai mata o Wolverine. Então, graças ao roteiro bem escrito, aparece uma bala de adamantium, única coisa capaz de matar o velho Logan (ou o seu clone, no caso). Ao que tudo indica, ele carrega aquilo há anos, para usar quando fosse a hora cerca.

Bem, ele não é muito cuidadoso nisso, se acham até na roupa que ele deixou para passar… Mas a bala está lá, na cena derradeira, e a menina que ele ajudou até então, acha uma arma compatível com a bala para dar um tiro e matar o X-24 – ufa! Ainda bem que tinha por perto, imagina se aquela bala de .45, tivesse que encaixar em um 38? Seria ruim para o filme.

Honestamente, entre a metáfora do vampiro e suas balas de prata, prefiro a do Jack Sparrow, que leva a bala e a arma junto para matar o capitão Barbossa. É mais garantido do que só a bala. Outra dica útil para a vida.

Morto o X-24, morre também o nosso Wolverine, que entre tantas aventuras empolgantes nos HQ, não teve no cinema a mesma felicidade.

Deboches à parte, o filme vale o ingresso promocional e o investimento no refri. Afinal, quem não gosta de passar um bom tempo no cinema ao lado de quem a gente ama?

Aquele abraço.

 

 

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