Tarantino´s Ultimate Collection Soundtrack

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Parece um tanto pretensioso, mas vou tentar fazer.

Acontece o seguinte, desde que assisti ao filme Django Livre, do diretor Quentin Tarantino, fiz uma busca nas trilhas sonoras dos filmes dirigidos por ele, ou até mesmo que ele tenha participado, para fazer uma lista atual, definitiva (até que venham novos filmes) e irreverente, com tudo que se ouviu nos filmes do cara. Batizei essa lista de músicas com o singelo título de “The Quentin Tarantino´s Ultimate Collection Soundtrach by Fábio Prina”. Nada original – eu sei -, mas soa legal.

Para tentar explicar o porquê disso, todos que já assistiram algum filme do diretor sabem que a trilha sonora é um show à parte dentro do contexto. Apesar dos filmes tarantinescos terem uma série de características legais, que os tornam divertidos, as músicas que embalam as histórias acabam ganhando vida própria fora da tela grande. Um fato interessante, por exemplo, é que o álbum Music from the Motion Picture Pulp Fiction chegou a figurar a 21ª posição da Billboard, quando foi lançado, na metade dos anos 90. O misto de rock, surf music e soul, temperado com diálogos do próprio filme, fez tanto sucesso que se tornou trilha de festas e trouxe a tona canções que estavam mortas e enterradas. É o caso da faixa Girl, you´ll be a woman soon, originalmente gravada por Neil Diamond, que foi incluída no filme com um cover da banda Urge Overkill e se tornou hit nas rádios.

Para fazer a minha lista (estou com essa coisa de lista na cabeça faz dias) peguei por base os filmes dirigidos por Quentim Tarantino: Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill, À Prova de Morte, Bastárdos Inglórios e Django Livre. Cada um tem pelo menos uma ou duas músicas presentes. Também está na minha lista uma faixa do filme Um Drink no Inferno, em que Tarantino é roteirista e participa com uma performance memorável (é muito legal mesmo)!

Poderia ter incluído ainda outras músicas que estão nos filmes Amor à Queima-Roupa, A Balada do Pistoleiro, Assassinos Por Natureza, Grande Hotel e Sin City, que há sim um dedinho do diretor/ator/roteirista/amigo ali, mas como não conheço bem as trilhas, só algumas faixas soltas, deixei fora pra não cair no mais do mesmo.

Falando nisso, há um disco muito bom, que eu comprei há anos e nem sei se está em catálogo, chamado The Tarantino Collection, que traz músicas da primeira fase do cineasta, incluindo filmes que ele foi roteirista até a consagração com Pulp Fiction. Vale a pena escutar. Inclusive, em uma olhada rápida pela iTunes Store, vi diversas coletâneas baseadas nos filmes do cara. Algumas muito picaretas com covers dos covers, mas enfim, material é o que não falta para curtir toda sonzeira fora dos filmes.

TARANTINO

Vamos a lista, em algumas canções eu postei o link para dar aquela ouvidinha imediata.

The Quentin Tarantino´s Ultimate Collection by Fábio Prina

1 – Battle Without Honor Or Humanity – Tomoyasu Hotei – Kill Bill Vol. 1

Música que embalou os trailers de Kill Bill antes de ser dois filmes, antes de ter atrasado mais de seis meses para estrear no Brasil, antes de ser um megassucesso. Aparece na sequência em que A Noiva localiza a vilã Oren Ishii no Japão.

2 – Across 110th Street – Bobby Womack    – Jackie Brown

Canção que toca nos créditos inicias de Jack Brown e também no desfecho do terceiro filme do cineasta. Coincidentemente (ou não) a música também toca nos créditos iniciais de um famoso filme rodado em Carlos Babosa, chamado Patrícia Genice.

3 – Royale with Cheese [Dialogue] – Samuel L. Jackson & John Travolta – Pulp Fiction

Dialogo entre Jules e Vicent antes de uma violenta retaliação contra um grupo de jovens, no início de Pulp Fiction, pelo diálogo dá para perceber que eles não estão lá muito preocupados com o que vai acontecer em seguida.

4 – Jungle Boogie – Kool & The Gang – Pulp Fiction

Toca ainda na abertura de créditos do filme, como se quem estivesse escutando tivesse trocado de estação de rádio, nos modelos com onde se girava o dial, típico dos anos 90.

5 – Staggolee – Pacific Gas & Electric – Grindhouse: Death Proof

Bela cansão que está no pior filme do diretor. Mas vale a pena estar na lista.

6 – Dark night – The Blasters – Dusk till Dawn

Outra música que acompanha os créditos, desta vez no filme Um Drink no Inferno.

7 – A Satisfied Mind – Jonny Cash – Kill Bill Vol. 2

 A Satisfied Mind é a música que Budd escuta em seu trailer, aguardando que A Noiva venha para se vingar.

8 – Slaughter (Album Version) – Billy PrestonInglourious Basterds

Essa música serve apenas como vinheta para a apresentação do bastardo Hugo Stiglitz, em Bastardos Inglórios. Detalhe para a voz de Samuel L. Jackson que narra a trajetória do anti-herói no filme.

8 – Ode To Oren Ishii – The RZA – Kill Bill Vol. 1

Essa mistura de rap com a trilha adaptada do filme está na trilha sonora de Kill Bill Vol. 1. O rapper RZA conta a história da vilã Oren Ishii com uma pequena música que está no filme, ela toca no momento que A Noiva corta o tendão de Buck.

9 – Too Old to Die Young – Brother Dege (aka Dege Legg) –Django Unchained

Uma das faixas mais legais de Django Livre dá um pouco de clima country-rock para o filme.

10 – Down In Mexico – The Coasters –Grindhouse: Death Proof

É a música que toca na lap dance que Stuntman Mike ganha da Butterfly. Originalmente a sequência não estava presente, quando À Prova de Morte havia sido lançado junto com Planeta Terror, no projeto Grindhouse.

11 – Stuck in the middle with you – Stealers Wheel – Reservoir dogs

Música está tocando no galpão onde o que restou da gangue aguarda o próximo passo e torna corriqueira a cena mais violenta do filme.

12 – Let’s Stay Together – Al Green – Pulp Fiction

Música de fundo no diálogo entre Marcelus Wallace e Bunch.

13 – Cat People (putting Out the Fire) – David Bowie – Inglourious Basterds

A curiosa concepção de trilha sonora fez com que essa canção de David Bowie tocasse em um filme de segunda guerra sem parecer ridículo.

14 – Stuntman Mike [Dialogue] – Rose McGowan & Kurt Russell – Grindhouse: Death Proof

Diálogo de apresentação do assassino antes de fazer mais uma vítima inocente.

15 – Baby It’s You – SmithGrindhouse: Death Proof

Outra música legal de À Prova de Morte, de fato a trilha mais próxima de ser comercial do diretor.

16 – Little green bag – George Baker Selection – Reservoir dogs

Mais uma música que toca nos créditos de abertura.

17 – Didn’t Blow Your Mind This Time – The Delfonics – Jackie Brown

Uma bela canção que nos remete muito bem ao climão romântico dos anos 70.

18 – “In the Case Django, After You…” [Dialogue] – Christoph Waltz – Django Unchained

Dr. Schultz convida Django para um novo tipo de trabalho.

19 – Django – Luis Bacalov Django Unchained

Além do nome Django e da presença de Franco Nero essa música deve ser a única coisa que o filme tem de comum com os velhos Djangos. Também toca na sequência de créditos iniciais.

20 – Girl, You’ll Be a Woman Soon – Urge OverKill – Pulp Fiction

Antes de ter uma overdose, Mia entra no clima com essa balada que virou sucesso após o filme.

21 – I Got a Name – Jim Croce – Django Unchained

Sequência do tipo propaganda da Malboro em Django Livre é uma preciosidade. A música esquecida embala a fase de transformação do personagem, que tem um nome! Há! Entedeu?

22 – The Last Race – Jack Nitzsche – Grindhouse: Death Proof

Música dos créditos de abertura, também…

23 – The Legend of Pai Mei [Dialogue] – David Carradine –  Kill Bill Vol. 2

Sequência em que Bill conta para A Noiva a lenda de Pai Mei. Diálogo clássico!

24 – A Silhouette of Doom – Enio Morricone – Kill Bill Vol. 2

Morricone tem sido um coringa de Tarantino em seus últimos quatro filmes. Está sempre presente. Esse clássico abre os créditos da segunda parte de Kill Bill.

25 – Six Shots Two Guns [Dialogue] – Samuel L. Jackson – Django Unchained

Dialogo nonsense de Django Livre

26 – Unchained (The Payback/Untouchable) –  James Brown/Tupac –  Django Unchained

Essa é legal! Unchained pega o nome original do filme e mistura duas canções: The Payback, de James Brown, e Untouchable, de Tupac Shakur, ambos figuras emblemáticas da cultura afro norte americana que já faleceram.

27 – Jack Rabbit Slim’s Twist Contest [Dialogue] / You Never Can Tell  – Chuck Berry –  Pulp Fiction

Oura canção que se tornou popular após o filme. Embala o concurso de twist no Jack Rabbit Slim.

28 – The Flower Of Carnage – Meiko Kaji – Kill Bill Vol. 1

Essa é a música dos créditos de encerramento, pelo menos uma pra contrariar o resto.

29 – Pumpkin & Honey Bunny [Dialogue] / Misirlou – Amanda Plummer & Tim Roth / Dick Dale & His Del-Tones – Pulp Fiction

E talvez o maior legado das canções que estão nos filmes de Tarantino, Misirlou abre Pulp Fiction.

Era isso, espero que vocês tenhas curtido!

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Esse post foi escrito originalmente em janeiro de 2013, e tinha como objetivo ir na onda na estreia de Django Livre nos cinemas. Mas por motivos de esquecimento, engavetei esse texto e só reencontrei ele hoje, 12 de agosto de 2013.

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Dia de Cinema – À Prova de Morte

Três anos após o lançamento, na forma a qual foi concebido, o filme À Prova de Morte, do cineasta americano Quentin Tarantino, chega em circuito alternativo às salas de cinema da Republica Federativa do Brasil.

Em tempos de downloads ilegais, dvd´s importados, youtube, etc… chega a ser uma piada que um trabalho de um dos maiores cineastas de todos os tempos tenha demorado infinitos três anos para aportar aqui. Mas fazer o quê?

Para quem nem lembra mais de onde ouviu falar de À Prova de Morte desde o longínquo ano de 2007, vamos dar uma retomada. Naquele tempo, dois grandes visionários, Tarantino e seu pal Robert Rodriguez, tiveram uma audasiosa ideia, que hoje sabemos – não deu certo. Inspirado nas salas de cinema bagaceiras dos anos 60/70, a dupla realizou uma homenagem aos explotation movies , produções toscas que exploravam violência e sexo e que muitas vezes eram exibidos em cinemas de quinta categoria em sessões duplas, conhecidas como Grindhouse. Eis então, que os diretores juntaram seus talentos e realizaram uma pretenciosa mega produção, chamada exatamente de Grindhouse, com dois seguimentos em longa metragem: Planeta Terror, de Rodriguez; e, À Prova de Morte, de Tarantino, cortada por trailers falsos de outros explotation movies, incluindo Machette, que foi rodado por Rodriguez e chega aos cinemas em outubro.

Como o filme naufragou nas bilheterias norte americanas, a ideia original se dicipou, e a obra foi lançada mundo afora, de forma separada, dando origem aos dois títulos citados. No Brasil não foi diferente, e por motivos de desconfiança da distribuidora Europa Filmes À Prova de Morte ficou engavetado até que seu direitos foram comprados pela PlayArte, e, que, enfim, deu um pingo de esperança para que os fãs tarantinescos pudessem assistir ao trabalho do realizador no meio a qual o projeto foi concebido para ser visto: a sala de cinema.

De tão nostalgico que é relembrar toda via sacra de Grindhouse no Brasil, fui buscar a melhor crítica de cinema já escrita para a produção, do meu velho amigo Felipe Guerra, diretor, crítico, ator, jornalista, bloggueiro, mestrando, curador e cinéfilo. Faz tanto tempo que ele fez esse texto, que nem no novo site do Boca do Inferno é possível localozá-lo. Então, em forma de homenagem, publico uma parte do longuíssimo texto de Grindehouse sobre À Prova de Morte, na íntegra , sem a devida autorização do seu autor. Espero que ele não se importe!

Ainda sobre Felipe, gostaria de agradecer o tal por ter me dado a honra de conhecer pessoalmente, na última semana, o cineasta italiano Luigi Cozzi, que esteve no Brasil participando do Fantaspoa – Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre. Mas isso não tem nada haver com o resto da história.

Segue a encrenca abaixo:

Grindhouse

por Felipe M. Guerra

Segmento À Prova de Morte

– Você já viu algum filme onde o carro bate de forma tão violenta que não existe forma de alguém sair inteiro de dentro dele? Como você acha que eles fazem isso? – questiona Stuntman Mike McKay, o personagem principal de DEATH PROOF, numa cena-chave da película.

– CGI? – responde a inocente mocinha, fazendo com que o pobre dublê, interpretado por Kurt Russell, chegue a se engasgar!


Este diálogo reflete a insatisfação do próprio Quentin Tarantino, que criou a história para seu segmente de GRINDHOUSE baseado na paixão que tem pelas velhas produções com perseguições e desastres automobilísticos, tipo BULLIT, de Peter Yates, ou OPERAÇÃO FRANÇA, de William Friedkin. Ele odeia o fato de as produções atuais trazerem efeitos e carros criados em computação gráfica, o que facilita bastante o trabalho do diretor e dos dublês, mas por outro lado torna tudo mais artificial e menos emocionante para o público. “Acho que não teve mais nenhuma boa perseguição automobilística desde que eu comecei a filmar, em 1992. Para mim, a última cena fantástica do gênero foi em O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, e depois PREMONIÇÃO 2 mostrou um magnífico acidente de carros. Entre estes dois filmes, nada de mais. CGI em perseguições é algo que não faz sentido para mim – como é que uma coisa assim pode parecer impressionante?”, queixou-se o diretor, numa entrevista.

Todo o conceito de DEATH PROOF é baseado nos “carros à prova de morte”, construídos pelos dublês dos anos 60, 70 e 80 (quando não existia o conforto e a segurança da computação gráfica) para poderem demolir os veículos contra paredes de tijolos a 100 quilômetros por hora e ainda saírem vivos de dentro da ferragem retorcida. O sistema à prova de morte inclui um cinto-de-segurança especial que prende todo o corpo do motorista ao banco (evitando que ele se espatife contra o pára-brisa no momento da colisão) e uma espécie de “gaiola” resistente que isola o banco do motorista de todo o restante do veículo (para que não ele seja esmagado pelas ferragens e pelo bloco do motor quando o carro amassa). Sendo assim, o carro só é “à prova de morte” para o próprio motorista, é claro…


Foi isso que inspirou Tarantino a escrever a história de um psicótico dublê de Hollywood (o “Stuntman Mike”, em bom português “Dublê Mike”) que diverte-se perseguindo belas garotas e matando-as com seu carro “à prova de morte”. Originalmente, o diretor queria Sylvester Stallone na pele do personagem, já que o ator havia interpretado o vilão e piloto de corrida Machine Gun Joe no clássico ANO 2000 – CORRIDA DA MORTE, produzido por Roger Corman. Como Stallone estava filmando seu ROCKY BALBOA na época das gravações de DEATH PROOF (agosto de 2006), Tarantino foi obrigado a buscar uma segunda opção, o ressuscitado Mickey Rourke. O nome do ator chegou a aparecer em alguns pôsteres de divulgação que circularam pela internet, mas Rourke foi “dispensado” por simplesmente não aparecer no set no primeiro dia de filmagens! Assim, o papel de Stuntman Mike acabou com a terceira escolha do diretor, Kurt Russell. Compondo um personagem ao mesmo tempo cômico e ameaçador, Russell não podia ter sido escolha melhor – até porque é um grande ator que vinha se queimando em filmes fracos.

DEATH PROOF começa com uma longa seqüência que acompanha uma garota caminhando – o que só comprova a tara do diretor por pés femininos, vista anteriormente em KILL BILL, JACKIE BROWN e PULP FICTION. Depois, Tarantino apresenta três amigas, Arlene (Vanessa Ferlito), Shanna (Jordan Ladd, de CABANA DO INFERNO) e a disc-jockey “Jungle Julia” (Sydney Tamiia Poitier, filha do ator Sidney Poitier). Para comemorar o aniversário de Julia, o trio vai até um restaurante mexicano em Austin, no Texas, para tomar margaritas e jogar muita conversa fora com os amigos Dov (o cineasta Eli Roth) e Warren (o próprio Tarantino). Julia confessa a Arlene que anunciou, em seu programa de rádio, que o primeiro homem que chegasse na amiga chamando-a de “Butterfly” (borboleta) e recitando o trecho de um poema de Robert Frost, ganharia dela uma “lap dance” (aquela dança típica das prostitutas americanas, que se esfregam sobre um homem sentado numa cadeira).

E eis que chega no local o misterioso Stuntman Mike McKay, vestido como um piloto de corrida e assustando as garotas com a enome cicatriz que tem num dos lados do rosto. Primeiramente, Mike tenta seduzir Arlene, mas percebe que a garota tem medo dele. Num dos diálogos intraduzíveis que brincam com a pronúncia das palavras, típico do Tarantino (lembra de “your dad is dead” e do “Zed is dead”???), Mike pergunta à garota: “Do I frighten you? It’s my scar?” (Eu assusto você? É minha cicatriz?). Arlene responde: “It’s your car” (É o seu carro), referindo-se ao bizarro Chevy Nova SS 1971 todo negro dirigido pelo dublê, e que tem o desenho de uma caveira no capô. Mike então chama Arlente de borboleta e recita o poema, ganhando como presente sua “lap dance”. Embora a dança não seja mostrada, já que entra o aviso de “missing reel” bem na hora só para provocar o espectador, takes desta cena aparecem no trailer do filme; logo, Tarantino realmente filmou tudo!


A noite vai passando e Mike resolve oferecer uma carona para Pam (Rose McGowan novamente, mas agora com os cabelos loiros). No caminho, explica para a garota o que é um “carro à prova de morte”. E também se revela um psicopata, quando começa a dirigir perigosamente para assustar sua vítima. “Você sabe… O carro é à prova de morte. Mas, para isso, você realmente precisaria estar sentada no meu assento…”, diz Mike, que então pisa no freio em alta velocidade e faz com que Pam arrebente a cabeça no pára-brisa do carro. Ainda sedento de sangue, o dublê psicopata pega a estrada, alcança o carro onde estão Arlene, Shanna, Julia e a traficante das moças, Lanna (Monica Staggs, dublê de Daryl Hannah em KILL BILL), e acelera contra elas na contramão, com os faróis apagados. Na violenta colisão frontal, as garotas são feitas em pedaços e morrem instantaneamente.

Este é o grande e inesquecível momento de DEATH PROOF. Acredite: perto desta cena, o acidente automobilístico mostrado no começo de PREMONIÇÃO 2 parece coisa de filme infantil. Tarantino filmou o desastre de quatro ângulos diferentes, usando todos os takes possíveis e imagináveis das moças sendo despedaçadas pela violência do choque entre os dois carros – a motorista é catapultada pelo pára-brisa; outra, que dormia com a perna para fora da janela, tem o membro amputado na altura da coxa, e a roda rasga o rosto de uma das caroneiras no banco de trás! O Detran poderia utilizar a seqüência toda nas aulas de direção defensiva da auto-escola! Apenas Mike sobrevive à batida, saindo com diversos ferimentos graves quando seu carro acaba completamente destruído…


Ele é levado ao hospital e interrogado pela polícia. Como substâncias tóxicas e ilegais foram encontradas no sangue das quatro moças mortas (que passaram a noite se chapando), a polícia resolve liberar Stuntman Mike da acusação de homicídio, sob protestos do texas ranger Earl McGraw (Michael Parks, de novo) e de seu “son number one” (James Parks, filho de Michael na vida real, e que fez o mesmo papel em KILL BILL e UM DRINK NO INFERNO 2). Algum tempo depois, recuperado dos ferimentos e com um novo “carro à prova de morte” (desta vez um Dodge Charger 1969, mas novamente com a caveira pintada no capô), o vilão começa a perseguir um novo grupo de garotas no Tennessee.

Elas são Lee (Mary Elizabeth Winstead, de PREMONIÇÃO 3), Abernathy (Rosario Dawson, de SIN CITY), Kim (Tracie Thoms) e Zoe Bell (dublê de Uma Thurman em KILL BILL, que aqui interpreta ela mesma!!!), garotas que trabalham como dublês de cinema e estão indo comprar um Dodge Challenger 1970 idêntico ao carro que aparece no clássico CORRIDA CONTRA O DESTINO. Durante um test-drive, as meninas são perseguidas por Stuntman Mike numa estrada deserta. O problema é que, desta vez, o psicopata encontrou mulheres fortes e determinadas, que transformam caçador em caça!!!

Embora tenha duas cenas realmente fantásticas (o violento acidente e uma longa perseguição de carros SEM CGI), DEATH PROOF é a parte mais decepcionante de GRINDHOUSE. Eu confesso que esperava mais de Tarantino, uma verdadeira enciclopédia de filmes exploitation, ainda mais após seu trabalho arrebatador em KILL BILL – que é muito, mas muito superior a este DEATH PROOF. Entretanto, desta vez o cineasta entrega um roteiro preguiçoso e burocrático, lembrando até o seu segmento na comédia sem graça GRANDE HOTEL. A maior parte do tempo de projeção é utilizada em diálogos, que raras vezes têm alguma utilidade na trama além de destilar a típica cultura pop Tarantinesca. Além disso, o diretor criou uma estrutura narrativa infeliz: apresenta cinco personagens femininas durante um longo tempo (40 minutos) e mata todas sem dó nem piedade, somente para depois apresentar mais quatro garotas (com direito a mais um montão de diálogos) como futuras vítimas do psicopata.


O problema é que como se trata de uma sessão dupla, o espectador já vem de um longa-metragem inteiro (PLANET TERROR) cheio de personagens, ação constante e um festival de violência; quando começa a parte de Tarantino, o ritmo cai vertiginosamente e há mais um montão de personagens para apresentar ao público. Pode até soar estranho para a maior parte da humanidade: alguns minutos antes você estava vendo uma batalha campal entre militares, sobreviventes e zumbis-mutantes, com sangue a rodo, tiros e explosões, e agora terá pela frente um blá-blá-blá interminável e Tarantinesco, incluindo uma cena tecnicamente irrepreensível, mas muito chata, onde a câmera acompanha quatro garotas conversando durante mais de 10 minutos, sem qualquer corte, enquanto tomam café! Se fosse um filme independente talvez o resultado não iria parecer tão arrastado, mas como metade final de um único projeto com três horas de duração, sim, DEATH PROOF realmente cansa, e chega a dar sono! Talvez teria sido melhor se DEATH PROOF viesse ANTES de PLANET TERROR…

Tarantino ainda comete um erro grotesco: mesmo com toneladas de diálogos, ele não consegue dar características e profundidade aos seus personagens. Se Stuntman Mike é um personagem rico e interessantíssimo, interpretado por um ator brilhante (Russell parece estar se divertindo muito como vilão), o roteiro simplesmente desperdiça sua existência, já que sabemos pouco ou quase nada sobre quem é ele e por que faz o que faz. No que concerne às personagens femininas, o diretor mais uma vez prefere enfocar mulheres fortes, lutadoras e determinadas (o que vem fazendo desde JACKIE BROWN), mas falha por não conseguir criar figuras realmente interessantes e com quem o espectador possa simpatizar – até esqueci seus nomes durante a história… E confesso que já estou ficando cansado dos “diálogos de negão” de Tarantino, que enche as frases de expressões “black” como “motherfucka”, “black ass” e “bitch”, mesmo quando são duas garotas branquelas que estão conversando!

Felizmente, o diretor consegue se redimir na conclusão do seu segmento, que é quando DEATH PROOF realmente brilha: o espectador fica na ponta do sofá (ou poltrona, no caso do cinema) acompanhando uma tensa e agonizante perseguição automobilística das boas, como nos velhos tempos, sem computação gráfica e com uma estupenda atuação da dublê Zoe Bell – ela fica pendurada no capô do Dodge em altíssima velocidade, enquanto Stuntman Mike, em seu carrão à prova de morte, tenta derrubá-la. Não tem como não ficar com os olhos grudados na tela, ainda mais quando você sabe que a própria dublê está realmente lutando pela vida no capô do carro, e cada vez mais perto de cair. E a seqüência continua com uma longa perseguição pela estrada, até a fraca conclusão que deixa um gostinho de “quero mais”, sem explicar muita coisa.

O cineasta complementa a brincadeira com as tradicionais “auto-citações” e homenagens a outros filmes. Entre as principais, cabe destacar:

– Uma personagem é vista bebendo o refrigerante da rede de lanchonetes fictícia “Acuña Boys” (nome de uma quadrilha citada em KILL BILL, filme anterior do cineasta)

– O personagem interpretado por Jonathan Loughran dá risadas sinistras idênticas às que o mesmo ator mostrou como o estuprador de KILL BILL

– A vitrola do bar onde as garotas estão, no início do filme, tem a canção “Misirlou” (da abertura de PULP FICTION) entre as mais tocadas.

O Chevy Nova dirigido pelo vilão é do mesmo modelo que o utilizado por John Travolta e Samuel L. Jackson em PULP FICTION.

– CORRIDA CONTRA O DESTINO é citado o tempo inteiro, inclusive no carro dirigido pelas garotas na metade final.

– Outros filmes sobre carros velozes e perseguições pela estrada são lembrados pelas garotas. Ao citar GONE IN 60 SECONDS, uma das personagens diz: “O original, não aquela merda com a Angelina Jolie”. hehehehe.

– Stuntman Mike tem a cicatriz no olho esquerdo, mesmo olho em que Snake Plissken, também interpretado por Kurt Russell, usava tapa-olho em FUGA DE NOVA YORK e FUGA DE LOS ANGELES.

– A velha cabana que aparece ao fundo quando as garotas vão comprar o carro seria a mesma utilizada por Sam Raimi em EVIL DEAD.

– Uma das garotas chama Stuntman Mike de “Zatoichi”, samurai cego dos quadrinhos orientais que já teve diversas adaptações cinematográficas.

– Mike cita a lanchonete “Big Kahuna Burger” (inventada por Tarantino em PULP FICTION).

– Uma cheerleader tem o nome “Vipers” na blusa, uma referência ao “Esquadrão das Víboras Mortais” de KILL BILL.


Tarantino ainda surge com uma inspirada brincadeira típica dos verdadeiros cinemas grindhouse: o título “original” do seu filme (que seria QUENTIN TARANTINO’S THUNDERBOLT) aparece em menos de uma fração de segundo, sendo logo encoberto por um negativo com o título DEATH PROOF sobreposto. Era um golpe freqüentemente utilizado nas salas de quinta categoria, quando um mesmo filme era relançado (com cenas a mais ou a menos) mudando apenas o título com que ele havia sido exibido antes, e normalmente o nome novo era apenas sobreposto ao anterior – foi o que aconteceu, por exemplo, com A ILHA DOS HOMENS-PEIXE!!!

Continuando nas suas apaixonadas citações cinematográficas, Tarantino também se apropria de músicas de outros filmes em DEATH PROOF, como já havia feito em KILL BILL. A abertura tem “The Last Race”, de Jack Nitzche, chupada da ficção científica VILLAGE OF THE GIANTS (1965), de Bert I. Gordon. Mais adiante, na cena em que Arlene “Butterfly” recebe uma mensagem inesperada pelo telefone celular, toca a triste canção “Sally and Jack”, composta por Pino Donaggio para o excelente UM TIRO NA NOITE, dirigido por Brian DePalma em 1981. Já uma das músicas de tensão é “Paranoia Prima”, da trilha sonora de Ennio Morricone para o giallo O GATO DAS NOVE CAUDAS (1971), de Dario Argento. O restante da trilha dá de dez a zero em PLANET TERROR, mostrando que Tarantino não é apenas viciado em cinema, mas também em música. Vale a pena comprar o CD.

É uma pena que DEATH PROOF não corresponda às expectativas de quem espera por algo no estilo de KILL BILL. O mais irônico é que o filme dificilmente seria exibido num verdadeiro cinema grindhouse, já que não tem ação suficiente e nem sexo (nada de sexo, na verdade) para o tipo de público que freqüentava aquelas sessões duplas. Se tivesse sido produzido por Roger Corman (que fez vários filmes baratos com perseguições de carros nos anos 70, como EAT MY DUST e GRAND THEFT AUTO), ele provavelmente obrigaria Tarantino a cortar os mais de 40 minutos de diálogos, ou pelo menos colocar mais batidas de carros e explosões intercalando estes gigantescos tempos-mortos. Considerando que Tarantino é um especialista no cinema exploitation em geral, fico pensando porque ele preferiu gastar mais da metade do tempo do seu segmento com conversa fiada ao invés de partir direto para a ação esperada numa produção do gênero…

Neste sentido, PLANET TERROR é muito mais exagerado, inconseqüente, divertido e “grindhouse” do que DEATH PROOF. E este segundo segmento dá uma pequena idéia do quanto seria imbecil colocar Quentin para dirigir um episódio da série SEXTA-FEIRA 13, boato ridículo que andou circulando na internet há alguns anos… Não que DEATH PROOF seja ruim, mas com certeza poderia ser bem melhor.

Fábio Prina_16/07/2010

Tarantino is back!

Quentin Tarantino, ‘o diretor mais influente nos anos 90’, está a todo o vapor. Agora exercendo aquilo que todo mundo quer ver dele: roteiros e direção. Após seu retorno do limbo em 2003 com o lançamento de Kill Bill, o cara não pára. Dirigiu uma ponta do trabalho do amigo-parceiro Robert Rodrigues, Sin CityA Cidade do Pecado, escreveu, atuou e dirigiu trabalhos para a TV e, também em parceria com Rodrigues, lançou nos cinemas o duplo Grindhouse, que sequer chegou ao Brasil, em sua forma completa.

Este último, injustiçado nas bilheterias, é na verdade uma sessão dupla de filmes, relembrando as nostálgicas salas de cinema B dos anos 70, que atraiam fregueses passando dois filmes por o preço de um. Death Proof, ou À Prova de Morte, seguimento de Tarantino, é o trabalho mais fraco do diretor. Fraco, porque sempre se espera fôlego e muita inquietação de um filme comandado pelo nerd, mas que nesse abre mão dos diálogos inspirados (com excessões) para dar voz ao cine-destruction setentista. O resultado, principalmente quando assistido ao lado de Planet Terror, segmento de Rodrigues, é no mínimo pífio.

Mas mesmo com o forte fracasso do trabalho em parceria, Tarantino não pára. E aí que entra a produção de seu projeto mais audacioso e adiado: Inglorious Bastards, seu filme de segunda guerra.

O filme é tão audacioso que seus “tutores”, os irmãos Weistein, tiveram que vir a público procurar por investidores que topassem integrar o time do $$ da nova obra de Tarantino. O negócio saiu do papel e já está em produção, com um elenco de Luxo – o que é comum nos filmes do diretor. Brad Pitt, Diane Kruger (Tróia), Mike Myers (Austin Powers) e Daniel Brühl (Adeus Lênin), encabaçam o cast.

Segundo o site Omelete, eis a sinopse oficial, divulgada na quarta-feira, 14 de outubro:

Inglourious Basterds começa na França ocupada pelos nazistas, onde Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) testemunha a execução de sua família pelas mãos do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz). Shosanna consegue escapar e foge para Paris, onde cria uma nova identidade como dona de um cinema.

Enquanto isso, também na Europa, o tenente Aldo Raine (Brad Pitt) organiza um grupo de soldados judeus para atacar alvos localizados. Conhecido por seus inimigos como Os Bastardos, o esquadrão de Raine se junta à atriz alemã e agente infiltrada Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger) em uma missão para derrubar os líderes do Terceiro Reich. Os destinos convergem para o cinema onde Shosanna está planejando a sua própria vingança.”

Poster teaser

Além disso, a revista americana Variety publicou um possível poster-teaser do longa. A imagem mostra o brasão nazista perfurado por uma bala, nada muito original, mas emblemático. Abaixo, apenas o nome do diretor e de seu filme. A previsão de estréia ainda não é exata, mas Tarantino garante que o filme estará no festival de Cannes em maio de 2009. Pagamos para ver. Mas é assim mesmo, tudo pode-se esperar desse camarada do cinema contemporâneo.

Fábio Prina_16/10/2008