Roger Waters – Us+Them Tour

Na última terça, dia 30, assisti ao show do meu maior ídolo Roger Waters, em Porto Alegre. Tratou-se do show mais aguardado da minha vida. Digo isso, porque os ingressos foram vendidos, e consequentemente comprados, em dezembro do ano passado, então, tivemos uma janela de 10 meses, entre a compra e a entrega. Mas valeu a pena. Digo mais, valeu a galinha inteira.

Há 10 meses, creio eu, quando a mega turnê teve seu agendamento na América Latina, incluindo o Brasil, ninguém deve ter colocado na balança o turbulento período eleitoral brasileiro, que infelizmente, foi mais valorizado pela mídia que o próprio espetáculo em si. Não me entendam mal, eu compactuo com grande parte do ativismo do artista, apenas acho que o foco da imprensa e dos seus fãs acabou se perdendo em meio ao caos político.

Primeiro ponto, em sua quarta passagem de turnê no Brasil, ele proporcionou a sua mais longa passagem por aqui, nada menos que 8 apresentações, em sete cidades, contemplando quatro regiões. Ainda, relembrando, as turnês anteriores: In the Flesh (2002) e The Wall Tour (2012), privilegiaram apenas São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, enquanto Dark Side of the Moon (2007), apenas Rio-SP.

Outro ponto importante que não deveria nem estar nesse texto é que, um show de Roger Waters sempre teve, como marca registrada, o ativismo humanitário. Logo, isso não deveria ser novidade para ninguém que tem o mínimo de conhecimento sobre o artista. Aliás, tornar isso notícia, soa extremamente ridículo ridículo. Mas vamos lá, com o contexto eleitoral em fervor, a manchete sobre o posicionamento do músico acabou ganhando força na mídia e fora dela, inclusive, com um processo instaurado pelo TSE por campanha eleitoral ilegal. Porém, como pretendo discorrer no texto mais a frente, ir ao show de Waters e se abalar ou se entusiasmar com um comentário sobre o Presidente Eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, é digno da pior metáfora da história: “Como ter sua casa invadida e sua família estuprada e registrar ocorrência por um eletrodoméstico roubado”, autor desconhecido.

Mas vamos falar sobre o show-evento da última terça.

“The sun is the same in a relative way but you’re older,
Shorter of breath and one day closer to death.” (Time – Waters, 1973)

Para quem é iniciado nos shows de Waters, Us+Them Tour não trouxe grandes novidades, como a letra de Time acima, o sol é relativamente o mesmo, mas estamos mais velhos. O que fica óbvio é que Waters recicla seu material mais valioso para formar uma storytelling para o seu mais alto grito de resistência ao totalitarismo e ao terrorismo de estado. Assuntos que já haviam sido tratados de forma pontual, principalmente na turnê The Wall.

Em uma praia paradisíaca, onde nada além das ondas e o vento influenciam o ambiente, o show começa. Duas canções clássicas do álbum Dark Side of the Moon (1973), obra prima do Pink Floyd, banda que Waters fundou e foi a maior referência criativa. A instrumental Speak to Me, chama as atenções ao palco, que se ilumina com a banda para executar Breathe, mostrando na gigantesca tela palco, imagens do universo em formação, destoante com um corpulento globo metálico que marca a sua presença engolindo o ambiente. A abertura é ainda composta de mais uma música, que se contrapôs a linda harmonia inicial, trazendo caos à paisagem. One of These Days, do álbum Meddle, de 1971, foi a música mais antiga executada na noite. A suíte instrumental enérgica, foi apresentada com perfeição como foi gravada há quase 50 anos, no sexto disco de estúdio da banda.

A atmosfera sombria logo dá lugar a euforia com a quarta música, o megahit Time, trazendo a clássica animação dos relógios emergindo da tela para o público, utilizado pela banda na década de 70, quando promovia seu maior clássico mundo afora. A força de Waters para cobrir os vocais de David Gilmour é válida, já que o público cumpriu sua parte em cantar junto a monstruosa canção sobre o tempo, precedida de Breathe Reprise, tal qual no disco, entoadas pelo guitarrista Jonathan Wilson, de forma muito competente.

Apresentação de Time no show teste da turnê, em outubro de 2016

Mais uma vez, respeitando a sequência do disco Dark Side… , as backing singers Jess Wolfe and Holly Laessig of Lucius assumem o protagonismo executando de forma esplêndida os solos vocais de Clare Torry, em The Great Gig in the Sky, alterando um pouco a composição original, para deixar o dueto equilibrado. As cantoras, que se apresentam na turnê com as mesmas vestimentas e perucas, tem a sua imagem sobreposta na tela palco como uma composição com os elementos da natureza, outra marca herdada e respeitada das apresentações originais da banda nos anos 70.

A natureza bela e a sonoridade deliciosa de The Great Gig… dão lugar a outra suíte de difícil absorção aos não iniciados. A pessimista Welcome to the Machine, do álbum Wish you Were Here, começa a ser tocada em uma versão diferente a do estúdio próxima do formato apresentado em In The Flesh, com ritmo de bateria para dar andamento, mas mantendo os vicerais solos de teclado sintetizados, executado pelo competente Jon Carin, parceria de Waters em todas suas turnês. E, que inclusive, esteve ao lado do Pink Floyd, nas apresentações que sucederam o lançamento do disco The Division Bell, de 1994, registrado no clássico show P.U.L.S.E..

Terreno pronto, Waters colou o bloquinho de três canções do seu mais novo disco, Is This the Life We Really Want? seu quinto álbum de estúdio, lançado em 2017, como um manifesto contra todo terrorismo de estado e ascensão do populismo autoritário, o qual ele não mede as palavras para chamar de Neo-Fascismo. Os títulos auto-explicativos provocam o ouvinte a refletir, principalmente sobre o regime apartheid instaurado em Israel sobre os palestinos, as crises de refugiados na Europa e intervenções militares norte-americanas. As canções escolhidas para o bloco foram Déjà Vu, The Last Refugee e Picture That, nessa ordem, abrindo espaço para projeções humanitárias de denuncia sobre as injustiças cometidas pela humanidade.

Waters sabe, nós sabemos, eles sabem. Tudo o que foi mostrado nas telas é frequentemente ignorado pela mídia e pela opinião pública que repudia a doença da sociedade em se focar no âmbito social e pensar no mercado. Se a economia está bem, o mundo está bem, digamos. Mas ele não deixa barato e põe o dedo na ferida que o planeta vive. Claro, isso não é de hoje, nem dessa turnê, ele sabe que o mundo vive e alarde isso em toda a sua obra, desde Dark Side of The Moon.

A desolação e a tristeza da perda se completam com a faixa-título Wish you Were Here, com uma projeção de mãos tentando se conectar, mas despedaçadas. Épico. Triste. Arrebatador.

O soundhound do estádio denuncia o hit Another Brick in the Wall – precedida de The Happiest Days of Our Lifes, todos conhecem os helicópteros chegando para vigiar os estudantes, eternos aprendizes, que estão sendo alienados pelos instrutores. O superhit da ópera rock The Wall, de 1979, é somado ao terceiro e mais violento movimento do disco Another Brick in the Wall – Part III, para dar ainda mais dimensão a música. Crianças sobem ao palco para emular o backing vocal da música, o que a equipe faz com muita competência, ainda da turnê anterior. Sob uma sobre-roupa laranja, que imita o uniforme presidiário americano, as crianças vestem uma camisa preta com a palavra “Resist” e a mesma palavra que é mantida na tela palco pós o encerramento do primeiro ato do show.

Para tornar didático, no curto intervalo de pouco mais de 10 minutos, a tela projeta diversos alienadores mundiais, incluindo Mark Zuckerberg e os Neo Fascistas atuais, que estão no poder mundo afora. Sempre com a mensagem Resist sobre tantas denúncias feitas em tão pouco tempo.

Em suas apresentações em São Paulo, o nome de Jair Bolsonaro esteve presente, sem filtros na primeira apresentação e encoberto por uma tarja com a escrita “Ponto de Vista Censurado” na segunda. Depois de dividir o público, entre aplausos e vaias, a equipe achou por bem retirar o nome, o que não fez a menor diferença ao público de Porto Alegre, que se dividiu entre o grito de guerra “Ele Não” e “Mito”, mostrando que a ignorância é a marca registrada do país do futebol (que acredita que tudo é paradoxal).

“I gotta admit that I’m a little bit confused
Sometimes it seems to me as if I’m just being used” (Dogs – Waters, 1977)

Ainda no intervalo, quatro colunas surgiram no palco. Primeiramente, mostradas na tela palco, com um estrondoso som quadrifônico ensurdecedor, e, em seguida, sobre a tela, dando uma dimensão ainda maior ao espetáculo visual e compondo o cenário para as projeções mapeadas. A “fábrica” capa antológica do disco Animals, de 1977, com seu porco sobrevoando, foi a primeira pirotecnia do show. Lembramos, que esse álbum, tem uma nítida influência do livro A Revolução dos Bichos, escrito por George Orwell em 1945, autor, que também já havia foi mencionado explicitamente, na turnê The Wall, com o seu Big Brother, do livro 1984.

Após as colunas da fábrica se estabilizarem, arrancando a terra do chão, inicia a segunda parte do show. A poderosa Dogs começa a ser tocada pela banda. A música mais longa do show, próxima dos 20 min, proporciona diversas leituras. Neste caso, o direcionamento foi aos autoritários, aos poderosos, aos formadores de opinião pela força. A projeção de um cão raivoso, permanente e amedrontador, deixa isso claro.

Em seguida, outra suíte do mesmo disco inicia. Desta vez Pigs (Three Different Ones), que utiliza a imagem do Presidente Norte-Americano, Donald Trump, para ilustrar a fala de Waters sobre anti-semitismo, xenofobia, racismo, machismo, incesto, pedefilia e outras tantas heranças deixadas por esse desgraçado que assumiu a maior economia mundial, com a promessa de construir um muro entre nações.

Ao mesmo tempo em que os solos de teclado e guitarra sintetizados ocupavam o espaço sonoro, um porco inflável – mais uma das marcas mais clássicas do Pink Floyd – era solto na plateia para ser exterminado. Nele era possível ler “Stay Human”, do doutro lado, “Seja Humano”, em uma das poucas mensagens na língua nativa que Waters trouxe. Ao final de Pigs, ainda se leu: – Trump é um porco!, onde se ouviram aplausos de todo público. Claro, o presidente dos outros a gente sabe que é um merda, o nosso, a gente defende…

Apresentação de Pigs no mesmo show no México. O show ocorreu às vésperas da eleição americana e o vídeo foi postado pelo artista no dia em que Trump foi eleito presidente.

Não satisfeito, a mensagem PIGS permanece na tela, mostrando que “eles venceram”, e outro megahit é apreserntado: Money, novamente do disco Dark Side… . Nos deixamos seduzir pelo riff de baixo e pela linda projeção, mostrando bilionários rindo, banquetes e objetos de luxo. O contraponto acontece ainda durante a canção, que muda o olhar das projeções para situações de extrema pobreza. Assistimos isso diariamente, e somos todos cúmplices da injustiça social ditada pelo mercado. O poder aos ricos e poderosos e os miseráveis, simplesmente miseráveis.

Novamente seguindo o track-on-track do Dark Side of the Moon, chega a canção Us and Then, que dá nome a turnê. Apesar de algumas licenças poéticas no vídeo, as imagens são próximas das projeções floydianas da época do seu lançamento, trazendo o embaraçado mundo, aos pequenos caminhantes anônimos do solo comum. A canção mais bela do disco de `73 deixa claro, o humanismo está presente, mas pouco representativo, numa sociedade de cães e porcos no poder. A construção da mensagem trazida pelo músico, começa a fazer sentido e a encerrar o espetáculo.

Antes do grand finale, sobrou ainda a batida pesada de Smell the Roses, outra faixa do último disco solo de Waters. Em alguns shows, esse momento teve a clássica Mother, do álbum The Wall, deixada de lado. Pelo discurso, entende-se que, talvez pela má aceitação as críticas de governo, não houvesse espaço para ela. Mas a faixa cumpriu o seu papel antes do descomunal fechamento. Ainda, sentiu-se algumas ausências no repertório, como Shine on you Crazy Diamond e músicas do chamado Early Years da banda, onde ainda contava com o controle criativo do falecido Syd Barret. Mas nenhuma ausência ou mudança no repertório comprometeu o espetáculo.

And everything under the sun is in tune
But the sun is eclipsed by the moon – (Eclipse – Waters, 1973)

Chegado o ato final, algo magnífico para entregar aos seus fãs, Waters tocou as faixas finais de Dark Side… (aqui cabe falar que, com exceção de On The Run e Any Color You Like, o disco foi tocado na íntegra no show), e além disso proporcionou uma experiência visual única, de estar dentro do prisma, a imagem clássica do álbum de maior sucesso do Pink Floyd. Arrebatador, letra e som fizeram muitos floydianos esquecerem as suas diferenças e cantares um uníssino as frases que fecham o maior disco de rock de todos os tempos. O triangulo equilátero perfeito, formado por lasers e luzes, foi ovacionado por todo o público por diversos minutos ao final da performance.

prisma

Reprodução no ápice do show com o Prisma.

Houve ainda um pequeno intervalo, para que Waters falasse ao público. Ele abdicou. Disse apenas que não queria problemas entre os fãs. Talvez, em outras palavras, ele tenha dito: desisti de vocês Brasil! Pode ser, neste momento, em outras apresentações houve até homenagens para a Vereadora Negra, Mariele, brutalmente executada no Rio de Janeiro e para o mestre capoerista Moa do Katendê, morto a facadas após uma discussão sobre política, em Salvador.

Obviamente, ele nunca pensou assim, ele só se deu por conta que esse não é o espaço de fazer valer a sua mensagem, afinal o show todo, era apenas entretenimento. Essa ironia, por mais patética que pareça, foi entendida por grande parte do público como verdade absoluta, o que me deixa revoltado, por ter uma mensagem dão urgente e tão óbvia, que não foi absorvida por muitos.

Por fim, Confortbly Numb, faixa do álbum The Wall, com seus solos de guitarra, desenhados melodicamente por Gilmour, fecharam o show com o excitasse de todos.

Após o fim da canção, a tela palco ainda se mostrou necessária, fechando o arco dramático da praia paradisíaca. Desta vez, uma mulher apareceu sentada, encarando o horizonte. Segundos depois, uma criança, também menina, apareceu e foi em sua direção. As duas se abraçaram antes do fade out. Apesar do final feliz, será que todos podem dizer que podem abraçar seus pares? Talvez a reflexão tenha sido muito pequena.

 

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Expectativa para um show que eu não iria ver sozinho

2018 vai ser um grande ano pra nós. Eu tenho certeza, por quê?
Bom, agora de início, porque teremos dois grandes momentos pela frente. O show do meu favorito Roger Waters, no final de outubro em POA. Ingressos comprados, ok!

E outro, o show do favorito da minha excelentíssima, do tal Eddie Vedder, show que vamos assistir em março em SP.

Bom, até aí nada demais, afinal, um casal que se diz curtidor de músicas boas ir atrás dos seus artistas favoritos para ver bons shows, sabemos.

Mas aqui vem uma revelação bombástica, ou nem tanto. Minha maior apreensão deste 2018 onde eu e a minha noiva estaremos acompanhando nossos artistas favoritos no palco é a expectativa para o Eddie Vedder. Por mais que o senhor Waters, e seu Pink Floyd, tenham a minha preferência, eu estou ansioso para ver o favorito dela.

Explico fácil: Pearl Jam é a banda dela, fez parte da juventude e até então. Ela conhece cada álbum, cada música, cada letra e cada história por trás, melhor que qualquer um aqui ou no mundo. Sério mesmo, ela manja mesmo e desafio agora: enfrentem ela nisso.

Mas o legal disso desse puxassaquismo todo é que eu gostava, tipo, legal, desses caras e dessa banda e tal, nada demais.

Mas ela me fez ver muito diferente, hoje reconhecendo que eles fizeram parte de muita história minha e nossa. Fomos em dois shows juntos dos Pearl Jam, os dois aqui em POA, 2011 e 2015, coincidentemente ambos no dia 11/11.

Mas assistir o senhor Eddie Vedder solo vai ser uma aventura muito diferente.

Recentemente, ela publicou nas redes sociais a respeito que, em um dos primeiros papos nossos, antes de tudo, a trilha do filme Na Natureza Selvagem, Into The Wild – Sean Penn – 2007, foi pauta da nossa conversa. Essa conversa realmente houve, e mais ou menos tudo que ela descreveu foi verdade. A verdade verdadeira, vos digo, que eu lembro, pelo menos, é que ali houve um beijo, um selinho na verdade, mas eu conto como um beijo, muito mais simples.

Lembro bem, quando a gente estava falando sobre esse filme, e disse: Eu tenho o CD da trilha sonora no meu carro e o DVD na minha casa. Ela disse: eu tenho o livro! Bom, ela é mais culta que eu, inegável.

A conversa foi fluindo e falamos sobre vários aspectos sobre o filme, a trilha, a profundidade, a hermenêutica… Esses assuntos nunca têm fim. Mas no final de tudo houve um beijo, lembro bem.

Afinal de contas, qual homem resistiria a uma mulher bonita falando sobre um bom filme e uma boa trilha. Na real, eu que tive a iniciativa, mas fica entre nós.

Bom, de um beijo, vieram outros, de umas ficadas, veio um namoro, de um namoro, aconteceu uma vida a dois, depois uma filha (a nossa), e depois  ainda o nosso noivado (a filha permanece) e o futuro, só a gente planeja.

Talvez eu deva ao Eddie Vedder e sua fabulosa trilha o meu atual status de relacionamento, ou não. Porque poderia ter falado qualquer merda. Tinha um CD do AC/DC no carro aquele dia… Mas vamos romantizar assim.

O que de fato eu quero contar agora é que eu gosto de Pearl Jam, não como ela, eu sei. Mas eu acho bom. Mas o trabalho do Eddie Vedder, nesse álbum em especial, é magnífico.

Tão especial que conheço de cabo a rabo. Literalmente.

Não é mentira dizer aqui que eu tenho o disco físico, o download honesto e o favorito no Spotfy.

Ver o cara que fez essa trilha, pra esse filme é um sonho meu. Um sonho longínquo, confesso, porque jamais me disponibilizaria ir até SP para assistir. A não ser com ela. A razão disso tudo.

Pois bem, a minha atual noiva faz questão de ver o cara, não importa aonde, diz ela. Claro que eu sou parceiro, mas… meio que sabotador. Talvez eu queira ver tanto quanto ela… duvido, mas eu quero muito ver esse show. Muito mesmo! E quero que seja antológico.

Mais sabotador que essa carona, eu quero que lá no meio do show, entre uma música e outra conhecida, lembrar de pegar a mão dela e pensar: talvez esse foi o som que motivou isso tudo. Estar aqui e agora é só uma consequência.

O Círculo – Crítica

 

 

Faz tempo que não escrevo sobre um filme. Mas ontem, assisti um que me fez querer dividir a minha opinião com o mundo. Trata-se d’O Círculo (The Circle, 2017), dirigido por James Ponsoldt, escrito por Dave Eggers, música de Danny Elfman e com o elenco encabeçado por Emma Watson e Tom Hanks, coproduzido entre os EUA e Emirados Árabes.

Uma história que prometia um retrato da atual geração, desde a ambição de trabalhar em uma empresa cool até a excessiva exposição através das plataformas digitais, as mídias sociais como dizem. Ao que tudo indicaria, o filme era pra ser uma grande crítica aos poderosos Google, Facebook e obviamente Apple, já que Hanks parece encarar o carismático Steve Jobs.

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Entrada da empresa, vidros transparentes que deveriam encobrir alguma verdade malígna

Parecia, porque o resultado é bisonho. Confesso que há tempos não assistia uma reunião tão perfeita de péssimo roteiro, atuações toscas e direção mal conduzida estragando uma história com um potencial interessante como esse.

Começamos pelo roteiro medíocre, que apresenta uma dúzia de personagens sem se aprofundar em nenhum, incluindo a dupla de protagonistas. Mae, a personagem de Emma Watson, é a mocinha bonita que vai desmascarar as falcatruas da empresa título do filme, apesar de enxergar o tempo todo com descrença o trabalho realizado. Ela desacredita no principal produto da empresa: a rede social TrueYou, algo que reuniu tudo que existe (não se tem muitos detalhes), mas se sabe que chegou a substituir o título de eleitor dos usuários em mais de 20 países. Apesar disso, ela aceita participar de um projeto ainda mais audacioso, o SeeChange, que são câmeras pequenas que transmitem em tempo real tudo o que a pessoa vive. (algo que lembra um pouco a comédia EdTV, filme lançado na onda d’O Show de Trumam, nos anos 90).

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Hanks encarnando Jobs no palco para apresentar as suas novidades

Obviamente que a coisa não vai bem. Ela já sabia disso, porque um dos criadores dessa parafernália na empresa, chamado Ty (outro desperdício do roteiro, com o ator John Boyega, de Star Wars completamente descontextualizado da trama), já tinha avisado. Porém, a menina decidida e empoderada cai no papinho tosco de Bailey (Hanks), o performático CEO da empresa.

Ao mesmo tempo que Mae não convence para ser protagonista e muito menos heroína, Bailey tão pouco convence como vilão ou gênio. Parece viver a sombra de seu cão de guarda, que nem o nome me presto a lembrar. Bailey é a encarnação de Steve Jobs, apresentando performaticamente as suas inovações, de uma forma descontraída. Porém, com conhecimento absoluto sobre tudo o que acontece ao seu redor.

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Dupla de mocinhos que faz pouco mais do que nada

O ápice da canastrice é que, incentivada pelos maiorais d’O Círculo, Mae leva seu ex-crush a uma morte transmitida ao vivo. Três dias depois, ela volta a empresa para dar a volta por cima, expondo Bailey e o Círculo de uma maneira um tanto quanto patética (fica implícito que ele cometia algum tipo de fraude fiscal). Mas, nada implicando na responsabilidade pela terrível tragédia. Algo que nem Gloria Perez conseguiria implantar nas tramas das suas novelas globais.

Se o roteiro é péssimo no trabalho com os personagens e com a história, imagina-se que os atores renomados irão se superar para contribuir com a trama, certo? Errado. Saindo do núcleo principal, temos Ty, falado acima, criador da rede TrueYou, que sabe que a exposição excessiva dos usuários somada com a quantidade de dados gerado para o Círculo era prejudicial e dava poderes ilimitados à empresa. Mesmo com esse conhecimento todo, ele decide levar essa informação para Mae, entre outras 8 bilhões de pessoas na Terra, porque “ele sabia que podia confiar nela desde o primeiro instante”. Bom, ele poderia até mesmo usar a plataforma que ele criou para deslanchar as denúncias, mas o caminho mais fácil foi usar a funcionária recém chegada que parece ouví-lo e entende-lo, mas faz tudo ao contrário.

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The Circle has you

No elenco também a parece Bill Paxton, no papel do pai de Mae, que sofre de esclerose múltipla degenerativa. Apesar da aparência convincente, ele não soma em nada e parece estar sucegado com a situação, já que ele e sua esposas são incluídos no plano de saúde da empresa, abrindo mão de todo contato com a filha e a exposição de suas vidas pelo SeeChange. Fora isso, ele faz pouco mais do que nada. A invasão de privacidade que foi submetido não tem maiores consequências, e a desistência de participar do projeto se resume a dizer junto com a esposa que eles não querem mais.

Fechando o elenco, temos o Mercer, o tal ex-crush da Mae, interpretado por Ellar Coltrane, famoso pelo papel do menino de Boyhood. Ele aparece pouco, sente a pressão de ter sido exposto e acaba envolvido novamente de forma trágica. Mas sua morte não parece abalar o mundo e a empresa, apenas Mae, que retorna para mostrar ao mundo o que acontece nos bastidores do Círculo, mas nem ela, nem Mercer, nem ninguém parece vingado como deveria acontecer.

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Hanks canastrão em um trabalho esquecível

E, por fim, fechando o arco de elenco, temos Annie, interpretada por Karen Gillan – a Nebula de Os Guardiões da Galaxia – a melhor amiga de Mae, responsável pela sua entrada na empresa. Ela vive desde o início uma rotina frenética de trabalho, beirando desde o primeiro instante ao workhollic. Após a chegada de Mae ela parece ficar preterida na empresa, apesar de as duas trabalharem em frentes completamente diferentes. Ainda assim, mergulhada em um trabalho que consome sua integridade física, é invisível aos colegas e a própria Mae, que não aprofunda nenhum sentimento com a amiga além de um “tudo bem com você?”. Annie também poderia ter maior participação na trama, talvez até ajudando a revelar as falcatruas ou mesmo a exploração dos funcionários (que só ela parece sentir, os demais adoram trabalhar lá).

Penso que nas mãos de um diretor mais experiente, como Michael Mann que fez O Informante, de 1999, ou como David Fincher que fez A Rede Social, em 2010, o resultado poderia ter sido bem diferente e positivo. Não sou familiarizado com nenhum outro trabalho do diretor, James Ponsoldt, mas vejo que ele não esteve no passo certo. Da mesma forma que o roteirista Dave Eggers, que entre outros filmes, adaptou a bela história Onde Vivem os Monstros, levada às telas em 2009 por Spike Jonze. Por fim, o nome mais conhecido nos créditos é o do lendário compositor Danny Elfman, que tem é um disperdício dentro de tamanha porcaria.

Enfim, olhando de diversos ângulos, o filme falha grandiosamente em qualquer linha que ele tente abordar, sejam as relações dos personagens, fora ou dentro da plataforma digital. Seja mostrando o lado obscuro das empresas cool de tecnologia e acaba atirando pra tudo que é lado sem acertar ninguém. Tão pouco, causa algum gosto amargo nas pessoas que se expõem no dia a dia, que deixam suas vidas públicas, que opinam sobre tudo sem o mínimo de conhecimento, que julgam, que agridem, que fazem o mundo um lugar intolerante e precipitado. O que é uma lástima, talvez um filme mais conciso e ambicioso poderia trazer esses assuntos para dentro do debate. Mas o fracasso é total.

Logan – uma crítica nada séria

Há tempos não escrevo nada, além daquilo que sou pago para escrever. Enfim, faz tempo que não exercito o meu prazer. Hoje me dei esse luxo.

Esse último final de semana foi muito especial, depois de quatro anos, fui ao cinema com a minha namorada para assistir a um filme comercial. Quebramos essa regra apenas para ver o filme-show do Roger Waters – The Wall, há uns dois anos, fora isso, nunca encontramos uma boa desculpa para ir ao cinema.

Posso colocar a culpa na nossa pequena filha, de quase quatro anos, o que seria um absurdo, já que, desde que ela nasceu, prezados ao máximo passar o tempo que temos disponível com ela. Posso colocar a culpa também na programação pouco atraente dos multiplex que nos cercam, o que é outra bobagem, os filmes continuam os mesmos, com títulos e caras novas. Mas o fato de assistir a um filme acompanhado da pessoa que eu mais gosto que me acompanhe em filmes, foi escasso, confesso.

Mas no domingo, convidei a minha amada para ir ao cinema. Sugeri assistir “Cinquenta Tons Mais Escuros”, aquele erótico soft que vende às centenas para as meninas. A sugestão foi recebida com tanta ironia por ela, como ao do convite que eu fiz. Então sugeri Logan, um filme que realmente é a cara do nosso relacionamento, o mesmo que iniciou com discussões nerd sobre super heróis e cinema autoral, banhadas a cerveja nos bares ao entorno da universidade, onde nos conhecemos.

Deixamos nossa pequena com a vovó e partimos para a aventura de pipoca (nem compramos). Ela adorou –  o filme, já que a aventura por si foi apenas um passeio no shopping com o combo, compras, janta e cinema. Eu não – o filme, claro, porque qualquer momento que eu possa dividir com as pessoas que gosto, me sinto o maior dos super heróis do universo.

Cá chegamos na parte que falo sobre o filme que assistimos. Vou falar sobre diversas coisas, que podem acabar com a surpresa de quem não assistiu ao filme, então, sugiro que não sigam lendo àqueles que não querem ter nenhuma emoção estragada por essas batidas de tecla sem discernimento.

Logan (de James Mangold, 2017) deveria ser a terceira parte de uma trilogia derivada de uma outra trilogia, que seria os filmes dos X-Men, iniciada por Brian Singer (que não é cantor), em 2000, com duas continuações, um praquel em 2011, que depois viria ter outras duas continuações do original, que era o praquel. Enfim, esse enredo confuso é concluído no desastroso filme derradeiro dessa bagunça de nove filmes até então, chamado “X-Men – Apocalipse”. Não consigo me aprofundar mais do que isso, porque honestamente, fora algumas cenas, todos esses ‘vai e vem’ não fazem pra mim a menor diferença. Mas vi todos, ou aguentei todos, aguardando a redenção de uma turminha tão bacana quanto os X-Men no cinema. E essa era a promessa de Logan: se redimir dos fracassos homéricos que foram conduzidos até então.

Ao que parece, a tentativa de levar aos fãs – ou aqueles caras que se dizem fã de qualquer coisa, porque consomem tudo que aparece de qualquer herói que ganha duas horas de projeção na tela – foi tentada duas vezes, utilizando o mesmo personagem de Logan, mais conhecido pelo nome de Wolverine. O errante personagem da Marvel ganhou duas adaptações cinematográficas anteriores, o indecifrável X-Men Origens: Wolverine, que é um filme tão sem noção, que figura ao lado de Soldado Universal: O Retorno, como pior filme que utiliza dois pontos no título, de todos os tempos – minhas maneiras de classificar filmes são diversas, admito.

E depois, veio o errante “Wolverine Imortal”. Um filme que me marcou tanto, que nem lendo a sinopse consigo lembrar do que se tratava.

Eis que o mesmo diretor desse último citado, James Mangold, assinou a terceira passagem solo do mutante animalesco nas telas. E ela não decepciona, perante seus predecessores, é melhor sim, é recheada de cenas bacanas, mas é tão distante de um filme de super herói, que chega a decepcionar.

Primeiro, vou contar um segredo que não interessa a ninguém: a publicidade, mais uma vez, me conquistou. Digo isso porque foi impossível assistir aos trailers de Logan, sem ser tocado pela voz forte de Johnny Cash entoando Hurt, sua música de final de carreira que prestou contas a uma geração inteira, que não compreende o legado até hoje. Poderia ser malvado aqui e dizer que esse tal James Mangold simplesmente fez uma auto citação, colocando músicas de um personagem o qual já dirigiu uma biografia. Saca Walk the Line, traduzido pessimamente no Brasil como “Johnny e June”, é do mesmo diretor. O que isso quer dizer? Nada! Continuamos.

O trailer pós-apocalíptico, mostrando um velho Wolverine, um idoso Xavier e uma penca de cenas de carnificina me ganharam fácil, mas aquela vontade de ver, veio mesmo dos comentários dos nerds que eu respeito, dizendo que era o grande filme dos X-Men. Talvez seja, não vou dizer que não. Mas longe de ser um grande filme.

Vamos ao que interessa, Logan, não se passa exatamente num futuro pós-apocalíptico, na verdade é num futuro bem plausível. Tirando o fato de que existem os mutantes na tela, o filme é muito parecido com 2016/2017. Há um aplicativo para chamar carros para passear, os celulares ainda são utilizados nas mãos, as casas precisam dos recursos de eletricidade e água, se dirige caminhonetes dos anos 70 e as pessoas ainda transacionam dinheiro em espécie. O que realmente ganha corpo dentro da ficção científica, no mundo do filme, é a genética. Já que não nascem mais mutantes (o porquê não foi explicado e nem fez falta), se criaram embriões em laboratório com as características daqueles que um dia dominaram a Terra. Não os dinossauros, os humanos com poderes excepcionais.

Bom, nesse mundo bem parecido com o que vivemos restam poucos mutantes, sabemos de três: Wolverine, Charles Xavier e um outro carinha que não lembro o nome, mas ele fareja mutantes. Um personagem que, veja bem, ele tem o dom de fazer o que o Wolverine fazia com o nariz, ou o que o Xavier fazia com a mente. Mas o primeiro tá baleado e o outro tá com o pé na cova. Seguimos…

Nesse mundo igual ao nosso no futuro, uma das grandes melhorias, sem dúvida, será na edição de imagem por celular. A Gabriela, personagem que não vou explicar por falta de paciência, mostrou em duas cenas, que é possível gravar um vídeo selfie, com locução em off e trilha, de uma noite pra outra, coisa que quem mexe com imagem hoje sabe que é um saco. Nesse vídeo excelente, há uma complexa edição de câmeras escondidas (alô Ivo Holanda), a qual ela mostra a origem de uma garotinha chamada Laura, mais conhecida pelos nerds como a X-23. Essa mina tem um poder de mutação igual ao do Wolverine, e, como ele, foi submetida a um experimento com um metal chamado adamantium, que ocupa toda a sua estrutura óssea, além do bônus de garras nas mãos e uma no pé. Ainda não sabemos como esses dois personagens fazem para mexer o pulso quando as garras das mãos estão em modo descanso, mas enfim, funcionam tri bem.

Bom, a Gabriela pede para o Wolverine levar a Laura para um lugar secreto, que não é tão secreto assim, já que está escrito em tudo que é papel que aparece pelo caminho. A Gabriela morre, o Wolverine, que é um animal, tem seu coração partido pela pequena garota e pelos conselhos de um idoso que deixa de ser biruta com 5min de filme, e parte para a parte road movie do filme, com a pequena e o velho. Oba, que novidade, um filme de estrada para falar em redenção. Imagina se o Jack Kerouac tivesse essa ideia lá atrás, todo mundo ia copiar. Spoiler pra vida: se você tem uma vivência errante e quer terminar achando que é o cara, pegue um carro velho e caia na estrada com um desconhecido, o final será maravilhoso, com sua morte, mas histórico.

No meio disso, claro, tem muita acão, nunca Wolverine foi tão furioso na tela. Ele crava as garras, arranca membros, mata bandidos, capangas e alguns inocentes no meio do caminho com fervor. Algo meio Deadpoll, só que sem as piadas. Na verdade, parece que pegaram a mesma equipe de efeitos visuais bizarros do longa antecessor, que abriu caminho para filmes de herói non-sense no cinema, e colocaram no produção para dar um ar de ‘ai que violento’ nesse filme aí.

O fato de ter a cosmética da violência tão latente em Logan, me fez lembrar do último filme que havia assistido com a minha companheira em casa. Há duas semanas, aproveitamos uma reprise de “O Silêncio dos Inocentes”, na TV paga para curtir noite adentro. O Silêncio… nunca apela para a violência explicita, até mesmo quando o canibal Hannibal Lacter abocanha o rosto de um dos guardas. É tudo implícito. Mesmo assim, esse filme assombra gerações pela tortura psicológica, de saber o que um ser humano é capaz em seu estado mais sombrio.

Logan é mais literal, vai pelo caminho curto da sanguinolência, não que seja ruim, mas parece uma piada requentada trocando o português pelo espanhol.

Aliás, outra coincidência de Logan com outros produtos da cultura pop, está ena cena em que Wolverine, Xavier e Laura visitam a casa de uma família afro descendente e desencadeiam um tiroteio e massacre. Me lembrou, e muito, “O Exterminador do Futuro 2”, em que o momento de paz foi silenciado pelo tiroteio sem fim. Falando em Exterminador, o que falar do X-24, que seria o grande vilão do filme – um clone de Wolverine -, mais animal que o próprio Wolverine, sem alma, sem dó, sem controle. Sério, me vi muito vendo essas continuações do Exterminador que o velho Schwarzenegger se vê encarando um dos dele em CGI, tosco pra caramba.

Falando em vilões, eu gosto de heróis que enfrentam vilões. Seu nêmesis, seu algoz, que de alguma maneira encaram nosso preferido de frente e tem seu duelo mortal à luz do luar, com a cavalgada da vitória ao amanhecer. Viajei né? Sei, mas talvez, uma pequena parte disso poderia ter se usado nesse filme.

Logan não tem vilão. Tem o cara dos Carniceiros, que parece o Sawyer do Lost e é morto pela criançada, tem o pai do William Styrker (que é o cara que colocou o adamantium nele) também tendo um fim sem graça, e tem o tal X-24, que no final das contas, não presta pra nada. Eu sou mais old school nisso, gosto do herói enfrentando o vilão mor e dando-lhe uma tunda de pau. Básico e não tem erro. É assim que o Batman encara o Coringa, que o Superman dá o recado pro Lex e que o Homem-Aranha lida com o Duende Verde.

O pior vilão de Logan é a sua velhice-fraqueza, que cada vez mais consome as carnes do nosso herói. Não que seja ruim, acho que é o maior ganho dessa naba. Ver o Hugh Jackman se arrastando 97% do filme, dá uma certa agonia, uma vontade de ajudar. Em uma certa cena, Wolverine está inconsciente na mesa de um velho médico que se oferece para ajudar. Pensei naquele instante em ver o animal humanizado, recebendo curativos e pontos para voltar mais inteiro à cena.

Infelizmente, não é o que acontece. A tal ponto do filme, somos apresentados a uma substância verde que recria os tecidos dos humanos, emulando o mesmo fator cura, que já foi o diferencial do baleado (literalmente) Wolverine. Em seguida, numa cena patética, nosso Wolverine pega um ampola dessa substância e fica fortão e bonitão num toque. Jurei que o filme estava de palhaçada e iria tocar a música do Popeye para alegrar a gurizada. Que nada, ele estava se levando a sério. Daí a gente larga de mão, né?

Bom, o final do filme não é lá grandes coisas, o Wolverine vai ajudar as crianças em apuros. Ele é um animal mas tem coração, né? Só que o X-24 tá na banda e vai mata o Wolverine. Então, graças ao roteiro bem escrito, aparece uma bala de adamantium, única coisa capaz de matar o velho Logan (ou o seu clone, no caso). Ao que tudo indica, ele carrega aquilo há anos, para usar quando fosse a hora cerca.

Bem, ele não é muito cuidadoso nisso, se acham até na roupa que ele deixou para passar… Mas a bala está lá, na cena derradeira, e a menina que ele ajudou até então, acha uma arma compatível com a bala para dar um tiro e matar o X-24 – ufa! Ainda bem que tinha por perto, imagina se aquela bala de .45, tivesse que encaixar em um 38? Seria ruim para o filme.

Honestamente, entre a metáfora do vampiro e suas balas de prata, prefiro a do Jack Sparrow, que leva a bala e a arma junto para matar o capitão Barbossa. É mais garantido do que só a bala. Outra dica útil para a vida.

Morto o X-24, morre também o nosso Wolverine, que entre tantas aventuras empolgantes nos HQ, não teve no cinema a mesma felicidade.

Deboches à parte, o filme vale o ingresso promocional e o investimento no refri. Afinal, quem não gosta de passar um bom tempo no cinema ao lado de quem a gente ama?

Aquele abraço.

 

 

Como uma pedra rolando

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Às vésperas de comemorar 50 anos, a música Like a Rolling Stone, do Bob Dylan, ganhou hoje, 20 de novembro de 2013, o seu primeiro vídeo clip oficial, que está hospedado no site do cantor e compositor norte-americano. Claro que o lançamento, um tanto quanto tarde do vídeo não é de graça e vem para divulgar um box gigantesco, chamado Bob Dylan – The Complete Album Collection, Vol 1, que, como o nome sugere, inclui os quarenta e um discos de estúdio de Dylan e mais um pouco.

Voltando a Like a Rolling Stone, talvez esse seja o maior hino do rock americano, talvez do rock mundial. Nem os Beatles tem uma música tão emblemática, que voa através de gerações e segue atual, segue com apelo e encantando jovens – filhos e netos dos que já se deixaram encantar pela canção. Lançada em 1965, como single, chegou a figurar em segundo lugar nas paradas americanas, mais tarde se tornou faixa do disco Highway 61 Reviseted, do mesmo ano. A revista Rolling Stone (que tem esse nome por causa de outra música, chamada Rollin´ Stone, de Muddy Waters), colocou a Rolling Stone de Dylan como a número 1, no seu ranking das 500 maiores canções de todos os tempos, realizado em 2010. Outro grande reconhecimento, é do Rock n´Roll Hall of Fame, que também a elegeu ela como uma das 500 grandes da história.

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Novo lançamento de Bob Dylan reúne os 41 álbuns de estúdio do cantor e compositor

Isso sem contar as inúmeras regravações que ela passou, por artistas como Rolling Stones (olha esse nome de novo), David Bowie, Johnny Thunders, David Gilmour, Michael Bolton, John Mellencamp, Jimi Hendrix, entre tantos e tandos outros. De volta ao seu lançamento, a gravadora de Dylan na época, a Columbia Records, não ficou feliz com o resultado da mixagem final, chegando a expurgar a canção para fora de seu catálogo. Após a inclusão de um improviso com uma gaita harmônica e a produção de Tom Wilson, a música vazou do estúdio e chegou a algumas rádios, onde iniciou o seu ciclo de sucesso, que atingiu todo mundo e se tornou símbolo da contracultura norte-americana.

Passados 48 anos, o lançamento do vídeo clip oficial de Like a Rolling Stone não deixa de ser curioso. Claro que tudo foi pensado para promover o novo (re) lançamento de Dylan e explora da uma forma muito interessante o principal veículo onde os vídeos musicais se disseminam atualmente, a internet. O clip na verdade é um hotsite que simula uma TV, com vários canais, onde a trilha se mantém e, em todos os programas, atores, jornalistas, esportistas, desenhos e afins, articulam as palavras da música. Cabe ao telespectador zapiar de canal para assistir ao clip como achar melhor. Entre a seleção de programas, está um show de Dylan em sua melhor forma, nos anos 60, cantando adivinhe o que?

Criativo e interativo, o clip ainda deixa espaço para fazer aquela observação farofeira, de como a música, apesar de tantos anos, pode se moldar a tantos tipos de situações e, sozinha, se auto-reinventar e blá blá blá. 

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Para assistir/zapiar no vídeo interativo de Like a Rolling Stone clique na imagem acima.

Ainda, toda essa publicidade casada me lembrou outro grande comercial que Bob Dylan estrelou, em 2006. Na época, ele lançava disco Modern Times e recebeu um convite de Steve Jobs pessoalmente para estrelar um comercial do iPod + iTunes. Segundo a lenda, Dylan topou fazer de graça e o resultado foi positivo, porque o público jovem acabou se familiarizando com um dos maiores músicos de todos os tempos. Vale a pena assistir a peça, que faz parte da famosa campanha das silhuetas da Apple.

Fábio Prina_20/11/2013

Antes do filme acabar

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Celine e Jesse se conhecem e se apaixonam em Antes do Amanhecer (Before Sunrise)

Há filmes que foram feitos exclusivamente para você, seja você quem for. Falo isso porque existe um feito só pra mim. Um que na verdade são três e são casos em que eu me pergunto se a minha vida está imitando a arte, ou a arte imita a minha vida.

Conheci Jesse & Celine quando eles se conheceram. Foi num vhs surrado, que assisti e reassisti, na sala da casa dos meus pais, aquele amor eterno de uma noite. Era jovem naquela época, digo, jovem demais para compreender tudo que o filme me mostrava e não conseguia imaginar como continuaria, tanto filme como a minha própria vida. A reticência no final era um desafio para encarar o meu próprio futuro. Se na tv o amor em Viena tinha ficado no ar, no sofá me perguntava se algum dia ia viver aquilo.

Reencontro do casal em Antes do Pôr do Sol (Before de Sunset)
Reencontro do casal em Antes do Pôr do Sol (Before de Sunset)

Reencontrei Jesse & Celine, quando começava a amadurecer, saia da infância dos filmes em casa, para a adolescência do cinema. Fui para Porto Alegre num final de semana para ver o filme que passava em poucas salas lá. Aqui na Serra, lembro bem, sequer chegou a figurar na programação de um único cinema. Havia lido as notícias de que o casal que havia se despedido numa estação de trem em 1994 se encontraria em Paris, em 2003. E se encontraram. O amor inabalável daquela única noite, nove anos antes, havia se abalado e os dois tinham traçados as suas próprias vidas. Eu também, mas continuava ainda com a nostalgia de que pudesse viver como eles viveram antes. Muito mais do o amor que os dois tiveram há anos atrás, naquele reencontro eles também mostraram que tinham problemas com eles mesmos. Eu também tinha e tinha muito o que decidir.

Tempo, dinheiro, trabalho, romance e outros grandes problmas em Antes da Meia Noite (Before Midnight)
Tempo, dinheiro, trabalho, romance e outros grandes problemas em Antes da Meia Noite (Before Midnight)

Ontem à noite, revisitei Jesse & Celine, agora em 2013, no sofá do meu apartamento. Assisti depois do jantar, preparado pela minha namorada, que vive comigo há mais de dois anos. Esperamos que a nossa pequena filha pegasse no sono e deixamos o volume baixinho para que ela não acordasse. O casal da ficção tem meninas gêmeas, problemas financeiros, dúvidas, pouco tempo, trabalhos sufocantes, lembranças, ciúmes…. Tudo isso, assim como nós. Dessa vez eles estão na Grécia, passando um verão inesquecível em família. Eles observam o amor jovem de um casal de namorados, conversam com os mais experientes, dividem o tempo com os filhos e uma tentativa de romance. A garrafa de vinho ficou sobre a mesa, nem sempre dá para terminar. O telefone toca, não tem como não atender, pode ser uma emergência.

Me estarreceu, o terceiro encontro de Jesse & Celine não termina ambíguo. Ele pede desculpa, ela pede desculpa. É o estresse, é a correria, a brincadeira volta, com tom de deboche, o sorriso chega ao rosto. É quase meia-noite, é hora de dormir. Fomos dormir, nós três, sabendo que vamos continuar juntos, dividindo o tempo, nossa paciência e nosso dinheiro. Jesse & Celine foram aproveitar um pouco o tempo. Amanhã o dia recomeça e a rotina retorna.

As minhas histórias não são exatamente as mesmas de Jesse & Celine. Nunca me apaixonei em Viena, nunca me reencontrei em Paris e nunca passei férias na Grécia, mas não há como não traçar um paralelo. Particularmente me sinto narrado em cada filme, em cada momento. Que grata surpresa assistir cada um dos filmes desses personagens. Eles transcendem o cinema e acabam se transformando em conhecidos, aqueles que se houve uma notícia de vez em quando. Desejo revê-los em uma próxima oportunidade.

Jobs – O Filme

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Há vários meses observo as notícias sobre o lançamento de um filme biográfico sobre Steve Jobs. Estou atento porque a pessoa Steve Jobs é, para mim, o grande gênio do início do século XXI, que ainda não teve o devido reconhecimento pela sua contribuição ao progresso da humanidade. Mas claro, isso é apenas a opinião de um mero fã.

Sobre Jobs, o filme, conheço muito pouco. Resisti aos trailers, informações de produção e críticas sobre o trabalho, para que quando tiver a oportunidade, possa assistir da forma mais imparcial possível. Se bem que não vai ser tão imparcial assim. Há uns dois anos ganhei da minha amada companheira a biografia escrita por Walter Isaacsonn sobre Steve Jobs. Um livro pesado, pelo tamanho e conteúdo, que revisita a vida errante, a carreira fracassada/vencedora, as opiniões e um pouco da visão da sua visão do mundo.

Assim como outros grande gênios, Steve Jobs pouco fez, mas fez muito. Seu legado não está na “eureka” de uma invenção maluca, mas sim em juntar um número de pessoas competentes e fazer algo extraordinário. Não é coincidência então, que o seu biógrafo oficial, Walter Isaacsonn, tenha registrado em livro a vida de outro gênio americano, Benjamin Franklin, que teve uma trajetória de invenções próxima de Jobs (na maneira de executá-las, me refiro).

Para contar em poucas palavras, Jobs foi um órfão, criado por pais preocupados com a sua educação – que ele esnobou na vida adulta. A rebeldia da sua adolescência foi acalmado pelo LSD, retiro espiritual, dietas radicais e um temperamento longe de ser suportável. Depois, alicerçou a empresa de informática e eletrônicos mais valiosa do mundo na atualidade, a Apple, juntamente com o amigo Steve Wozniak. A história que muitos conhecem é o período onde ele mudou o mundo com o Macintosh, levou a empresa a quase falência e foi demitido no final dos anos 80. Criou outras empresas que não deram certo, criou a Pixar, voltou para a Apple, em 1997, e revolucionou o mundo mais duas vezes, respectivamente com os lançamentos do iPod, em 2001, e do iPhone, em 2007. O desfecho da sua vida aconteceu prematuramente em 2011, quando foi vítima de um câncer na pâncreas, aos 56 anos.

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As semelhanças entre o ator Ashton Kutcher (à direita) com Steve Jobs foram explorados repetidas vezes para divulgar o filme

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O que promete o filme Jobs é um recorte um tanto longo, que abrangeria o período da juventude do biografado até 2001, quando foi lançado a primeira versão do iPod. Particularmente, eu detesto assistir em duas horas aquele tipo de filme pasteurizado, que mostra a vida inteira de uma pessoa, ainda mais pessoas que tiveram uma trajetória tão complexa como Steve Jobs. Prefiro como ocorreu recentemente,  quando foram lançados três filmes sobre Che Guevara. Diários de Motocicleta, do brasileiro Walter Salles, com Gael Garcia Bernal como protagonista, e em seguida, Che – Parte 1 – O Argentino, e Che – Parte 2 – Guerrilha, do americano Steven Sodenbergh, com Benicio Del Toro encarnando o ídolo da esquerda. Cada trabalho ilustra de uma forma diferente alguns fatos da vida do personagem. Apesar dos problemas que esses filmes mencionados têm, é muito melhor conferir episódios da vida de uma pessoa com tantas histórias, do que compactar tudo em cento e vinte minutos de frases de efeitos, com caracteres em branco no fundo preto explicando como a coisa acabou, antes dos créditos finais.

Voltando ao filme, é interessante saber que Jobs não é e nem será a primeira e a última presença de Steve Jobs em filmes. Há alguns anos, saiu diretamente para vídeo uma produção independente de baixo orçamento, sobre a revolução da informática no final do anos 80. Piratas do Vale do Silício de 1999, constrói um retrato da mudança na indústria, através da visão de dois protagonistas centrais e suas empresas: Steve Jobs com a Apple e Bill Gates com a Microsoft. E ainda! Jobs não deve ser o filme definitivo sobre o visionário co-fundador da Apple.  A Sony prepara uma adaptação, com o roteiro de Aaron Sorkin, vencedor do Oscar por A Rede Social, que será baseado exatamente na biografia de Walter Isaacsonn, a qual o estúdio é detentor dos direitos. Esperamos isso para um futuro próximo, mas o projeto segue ainda sem nome.

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Possivelmente uma das cenas chave de Jobs, a apresentação do iPod

Jobs, que traz o ator Ashton Kutcher em uma excelente caracterização do pepel-título, estreia hoje, 16 de agosto, nos cinemas americanos. A produção começa a ser exibida no dia 6 de setembro no Brasil. Vale a pena dar uma conferida no site oficial da produção, que tem um visual bacana e uma série de imagens legais do longa. Enquanto o filme não chega, vale a pena ver (no meu caso rever) a lendária apresentação do iPhone, ou como o próprio Jobs exaltou, “a reinvenção do telefone”. Bobagens a parte, apenas seis anos depois, é muito legal sentir as reações da plateia quando o produto foi lançado. Mal sabiam eles que a mudança desde aquele dia em toda indústria de informática e telefonia seria tão grande.